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#artigo

Legião Urbana versus Fernando Collor

10/28/2010 12:09:17 PM
No início da década de 80, na capital do país, no meio de um grupo de jovens de classe média, formados em colégios de alto nível, surge a Legião Urbana. Influenciados pelo movimento anarquista e a música punk, a Legião nasce na sequência de dois projetos, o Aborto Elétrico e Trovador Solitário, ambos com a participação de Renato. Após discórdias e acordos, por assim dizer e para encurtar, o resultado é o trio que se tornou conhecido rapidamente no país inteiro; Renato Russo, Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos. Em suas letras, Renato falava sobre política, juventude, drogas, amor e tudo que iluminava e assombrava seus pensamentos. Parecia sempre conseguir imprimir sua sentimentalidade junto à racionalidade nos versos, e juntamente com a criatividade e simplicidade musical de Bonfá e Dado, os transformava em sucesso.


Renato Russo

Agora para entender o que eu disse lá em cima, analisamos a música "Vento no Litoral", do disco "V", que curiosamente foi o disco que Renato mais gostou. Ele dizia que esse disco tinha as melhores letras, mas não era o que o público queria ouvir no momento: "O problema é que o disco falava de coisas que as pessoas não estavam querendo ouvir na hora". (Entrevista de Renato Russo para a Folha de São Paulo).

Apesar de não ficar tão claro nas palavras e estrofes, nessa música, Renato retrata a melancolia que sentia e comenta também sobre sua relação complicada com um americano. Confira o trecho em que ele fala da música: "Eu vivi uma relação muito intensa, muito difícil com um americano. Ele vivia no gueto de São Francisco - era gay de carteirinha. Ele veio para o Brasil - ele era lindo, louro - e as meninas deram em cima. Aí veio aquela coisa de macho, porque todo homossexual masculino é macho, não adianta. Ele era dependente químico também, a gente viveu uma relação Sid & Sid. Ele, de speed, e eu, de álcool e tranqüilizantes. "Vento no Litoral" fala justamente disso: "Lembra que o plano era ficarmos bem", era o nosso plano. Só que não deu certo".

Legião Urbana - V

Sabendo do que se trata podemos fazer a comparação direta e descobrir facilmente seu significado que não estava tão escondido. Aqui na coluna entretanto, quero tentar descobrir e revelar o que os autores queriam passar em suas canções de uma maneira mais "oculta", onde apesar de cada um poder interpretar o que quiser, existe um verdadeiro significado que origina as obras. Por isso, "Vento no Litoral" não se encaixa nessa lista.

Assim chegamos à música "Metal Contra as Nuvens", do mesmo disco que "Vento no Litoral", o álbum "V". Esse álbum em especial rebuscava uma visão medieval que Renato tanto apreciava. Nota-se com clareza a presença desse sentimento nas músicas. Em especial, as três primeiras que abriam o disco. "Love Song", a primeira, com pequenos versos cantados em português arcaico, e toda a composição parece nos levar ainda que por pouco tempo à época medieval. A segunda, "Metal Contra as Nuvens", a música que analisaremos hoje, é uma suíte em quatro partes. E a terceira e última da introdução, é uma instrumental, com o nome "A Ordem dos Templários", que curiosamente pode ter relação ou não, com a interpretação de "Metal Contra as Nuvens".

Voltando à música em questão, como já dito, é constituída de quatro partes como vemos abaixo. Após uma introdução de nada menos que 1' 30'' , Renato começa seus versos. Para que possamos prosseguir, devemos voltar um pouco no tempo, mais especificamente no início dos anos 90, afim de identificar o contexto político que se encontrava o Brasil e assim entender com mais clareza o que os versos da música mais longa da Legião (11'26'') pareciam esconder. O título é talvez o mais difícil de decifrar. Se o tema fosse a Inquisição, poderíamos dizer que Metal é a espada dos cavaleiros e as nuvens é a Igreja. Se o temo fosse viagem, poderíamos dizer que metal é um avião e que voa contra as nuvens até seu destino. Como o tema é Collor pode-se tentar entender em linguagem figurada, como se a espada (que sempre representou a luta, justiça, etc.) fosse contra os céus, contra as nuvens que estaria representada pelo governo. Como se fosse o povo contra o governo. Mas esse ponto realmente não consegui definir com clareza. Caso alguém tenha outra opinião é só comentar lá embaixo.

Fernando Collor
No ano de 1990, Fernando Collor de Mello, era eleito como presidente do Brasil, no segundo turno, com apenas 5,71% de votos a mais que seu adversário, Luiz Inácio Lula da Silva (Collor com 49,94% contra 44,23% de Lula). Além de vários outros fatores, seu governo ficou mesmo marcado pela implementação do Plano Collor, que na verdade se chamava Plano Brasil Novo. O principal objetivo era a estabilização da inflação, congelando o passivo público. Desenvolvido por alguns economistas e em especial pela economista Zélia Maria Cardoso de Mello (que com a posse do primo, Fernando Collor, se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo máximo do Ministério da Fazenda), o plano teve até boa aceitação no início com a redução da inflação, porém resumindo, e muito, a casa começou a cair quando o resultado foi aparecendo. Nos meses seguintes, devido à algumas falhas no plano, a inflação continuava a crescer, e o congelamento originou redução no comércio e na produção industrial. Após apenas dois anos de governo com ênfase nesse plano econômico, Collor enfrentava em junho de 92 sua maior crise. Paulo César Farias, o famoso PC Farias, que era tesoureiro da campanha do Collor e do Itamar Franco (vice de Collor que depois assumiria a presidência), foi um dos personagens chave da questão. A briga de cachorro grande (dando fim ao ditado que diz "Cão que ladra não morde") com o irmão do presidente, Pedro Collor (o outro chave), onde esse acusava PC de enriquecer às custas de seu irmão (ponto). Aí que ferrou com tudo. Pedro foi mexer em casa de marimbondo, e foi picado. Como suas denúncias estavam passando dos limites, sua própria mãezita o removeu do controle das empresas da família (Dona Leda Collor não mima seus filhos não). Alegaram que Pedro sofria perturbações psicológicas (Freud explica). Mas o caçula não se cansava, e contra-atacou apresentando um laudo que provava sua sanidade mental e acusando novamente o coitado do PC de operar uma extensa rede de corrupção e tráfico de influência. Certo ou errado, Pedro jogou no ventilador (irmão caçula se sente menos privilegiado mesmo). O resultado foi a instalação de uma CPMI para investigar essa confusão. Collor foi se pronunciar na televisão chamando o povo a comparecer nas ruas vestidos de verde e amarelo em protesto contra os golpistas interessados em removê-lo do poder. O efeito foi contrário, e os estudantes chamados caras-pintadas foram às ruas para exigir o impeachment (Impeachment vem do Latim, e expressa a ideia de "tornando-se preso" ou aprisionado, com análogos do Francês moderno, prevenir, e do inglês moderno, impedir. Traduzimos portanto como impugnação de mandato, que por sua vez é o ato de oposição, de contradição, de contestação, refutação, comum no âmbito do Direito. Anotou, 06?).

Caras-Pintadas
Os caras-pintadas gritavam "Fora Collor" causando maior alvoroço (Se tivesse passeata, protesto e impeachment por causa de todo escândalo que aparece de 4 em 4 anos, teríamos o dobro de presidentes). Isso contribuiu para o andamento da CPMI que mostrava os indícios de PC Farias no poder. Tudo indicava que até mesmo as despesas pessoais da família Collor, eram financiadas pelo esquema PC. Em 29 de setembro, o pedido de impeachment foi aprovado por 441 votos contra 38. A votação foi aberta e transmitida no país inteiro (os políticos, claro, aproveitaram para aparecer num teatro a favor da democracia, até mesmo deputados ligados ao presidente votaram SIM). Collor renunciou antes do seu julgamento, que apesar disso prosseguiu, e ele então foi condenado à perda do cargo e a 8 anos sem vida política. Fato é que já vimos escândalos bem maiores que esse e nada de protesto muito menos impugnações de mandato. O cenário político e todos os fatores parecem ter contribuído mais ainda. Collor estava no lugar errado e na hora errada e não subornou a galera certa.


Tentei resumir bastante e acho que deve estar faltando algo, principalmente para quem está lendo e não viveu essa época (como eu). Mas quem quiser saber mais, os links de referência serão colocados sempre no final de cada postagem.

Temos agora a visão do contexto político do início dos anos 90, época que Renato fez a música, que foi lançada em 1991, ou seja, antes do circo pegar fogo de verdade. Podemos então analisar seu sentido. Se você procurar por aí, vai achar muitos significados para a música. Um até diz que a música conta a história da Ordem dos Cavaleiros Templários (que curiosamente é a música instrumental que também está no disco como já vimos), e apesar de realmente parecer, podemos seguir a linha que o próprio Renato nos apresentou (e deve ser a real né?!) em sua entrevista à Folha de São Paulo: "Acho 'Metal contra as Nuvens' uma música superacessível. O problema é que o disco falava de coisas que as pessoas não estavam querendo ouvir na hora. Foi quando estourou a axé music, a gente veio na contramão. Mas o disco tem as melhores letras, de longe. Consegui falar tudo o que eu queria. Mas as pessoas não queriam ouvir aquilo. Por exemplo,'Metal contra as Nuvens' é uma música sobre o Collor, mas nunca ninguém falou sobre isso."

São Jorge
Assim, Renato parecia vestir sua armadura medieval, montado em seu cavalo, com as espadas na mão e em uma batalha, que lembra as lutas contra o dragão (usadas em contos de fadas e também na história de São Jorge). Mergulha então, numa aventura épica pela liberdade e contra a maldade política encontrada na terra de ninguém. Muitos associam também que os trechos da música falam sobre a Inquisição, o controle da Igreja e tudo mais. Pode até ser que Renato tenha misturado os temas. Logo, as diversas interpretações apontam para um mesmo sentido, o poder controlador que certas instituições dispõe sobre as massas. Vamos procurar aqui seguir o que Renato disse na entrevista, ainda que possa ter se inspirado em outros temas.


Vamos à canção:

I
Não sou escravo de ninguém
Ninguém senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz.

Nessa primeira estrofe, ele defende a liberdade.
Parece remeter à época do Feudalismo .
E se mostra perseverante em sua missão.

Viajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É a própria fé o que destrói.
Estes são dias desleais.

Aqui é um ponto um pouco mais complicado. Já que a medida de Légua pode ser usada como unidade de medida terrestre e também marítima. Os valores dessas diversas unidades com o mesmo nome podem variar entre 4 e 7 quilômetros, o que nos dá um total de 28 a 49 km. E em alguns lugares, as léguas eram usadas como medida para distâncias percorridas a pé. Não é muita coisa para se viajar através de meios de transporte, porém a pé é bastante coisa. Não é muito claro esse trecho, mas parece ser alegórico, no sentido de trilhar um caminho longo e árduo, onde sente a solidão e sente sua fé abalada, em dias difíceis. Não encontrei se não dessa forma, muita relação com o governo Collor. Por isso acho que essa parte é mais pessoal do Renato. Pode também retratar aí algum sentido em relação à Igreja, apesar de que se for isso, fugimos do tema.

Eu sou metal - raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal: me sabe o sopro do dragão.

Dragão

Alguns creditam esse trecho, o refrão, como referência à Lula que disputou o segundo com Collor. O metal, nesse sentido viria pois, antes de seguir carreira política, Lula era metalúrgico. Outra interpretação, é que o metal, é referente à espada e escudo que o cavaleiro Renato usava para combater o dragão do governo. Por exemplo, ele diz "Eu sou metal: me sabe o sopro do dragão." O sopro do dragão significaria o poder do inimigo, que cospe fogo, o mesmo sopro que era tão temido nos contos medievais. Aqueles dragões que surgiam no céu e aterrorizavam e queimava tudo que via pela frente e destruía os vilarejos. Mas ele usa sua armadura de metal, com seu escudo que o protege desse fogo.

Até agora menos da metade da música se passou e já conseguimos perceber a riqueza dos versos e a dificuldade de interpretá-los.

Reconheço meu pesar:
Quando tudo é traição,
O que venho encontrar
É a virtude em outras mãos.

Agora, ele parece dizer que entende que foi traído. E depois de entender isso, ele procura a virtude em outra pessoa.
No contexto histórico em questão, ele se sentiu traído pelas promessas do Collor e sentiu que seu voto foi jogado fora. Ele então transfere sua admiração para outras mãos, outra pessoa. Talvez ele esteja falando do Lula. Mas isso é só suposição.

Minha terra é a terra que é minha
E sempre será minha terra
Tem a lua, tem estrelas e sempre terá.

Esse trecho é um pouco mais claro, e podemos entender que ele fala com um sentimento patriótico. Tem suas belezas e as coisas que sempre existirão, sejam ruins ou boas.

II
Quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesa.

Já na segunda parte da música, que se transforma mais em rock, alguns trechos são claros e outros mais complexos. O primeiro verso mostra como ele quase se iludiu com os projetos da campanha do Collor, o Plano Collor e tudo mais. Logo depois de implementado, como já vimos acima, o Plano começou a se dissolver. A inflação voltou a subir, e muito desemprego foi gerado. Como se ele tivesse perdido seus bens (Sela, espada, castelo e princesa).

Quase acreditei, quase acreditei.
E, por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo.
Mas vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindo.
Olha o sopro do dragão...

Aí vem a estrofe que deixa mais aparente o tema da música. Existem os tolos, ou seja, o povo que acredita e parece passivo, e existem os ladrões que roubam o que é do povo, por assim dizer. E alguns sobrevivem com o que foi roubado. Não preciso explicar muito, é só abrir os olhos.

E aí o verso que ao meu ver é o mais importante da música. Quando ele diz que vai guardar seu tesouro caso esteja mentindo, ele claramente diz que vai guardar o dinheiro dele caso as promessas de governo não sejam aplicadas. Remete a um dos momentos mais famosos do governo Collor, quando o dinheiro da poupança de muita gente é congelado (confiscado). E termina com o sopro do dragão. Mostrando novamente o poder do governo, como se cuspisse seu fogo sobre o povo mostrando que os controla.

III
É a verdade o que assombra,
O descaso o que condena,
A estupidez o que destrói.
Eu vejo tudo que se foi
E o que não existe mais.

A verdade que veio à tona e que surpreendeu todo mundo. A falta de responsabilidade e de honestidade e a ignorância que acaba com tudo.

Tenho os sentidos já dormentes,
O corpo quer, a alma entende.
Esta é a terra de ninguém
E sei que devo resistir -
Eu quero a espada em minhas mãos.

Já não aguenta mais sofrer. Esta é um país sem rumo, uma terra de ninguém. Mas ele deve sempre insistir na luta e sempre quer a espada na mão, como símbolo da batalha, jamais desistindo. Claro que esta mensagem não é só pra ele, não é própria, mas sim para quem quiser ouvir. Uma mensagem de perseverança.

Eu sou metal - raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal: me sabe o sopro do dragão.

Não me entrego sem lutar -
Tenho ainda coração.
Não aprendi a me render:
Que caia o inimigo então.

Novamente falando de perseverança. Ele não vai se render, e vai lutar até derrotar o inimigo.

IV
- Tudo passa, tudo passará...

Na quarta e última parte essa mensagem se repete. Tudo passará. É necessário que passemos por isso para construir um futuro melhor (parece coisa de autoajuda).

E nossa história não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz.
Teremos coisas bonitas pra contar.
E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer.
Não olhe pra trás -
Apenas começamos.
O mundo começa agora -
Apenas começamos.

A história ainda não acabou. O final feliz ainda chegará. E é importante lembrar das coisas boas. Mas todos ainda têm uma participação importante na construção de um país melhor. Quando ele diz que apenas começamos, quer dizer que o país é novo e que estamos construindo tudo agora. E que apesar de tudo devemos olhar para o futuro, mas é necessário começar agora.

Assim, "Metal Contra as Nuvens" termina com uma bela mensagem de esperança. Assim como terminam os contos e histórias de guerreiros que remetem à Idade Média.



É importante ressaltar que cada um pode interpretar do seu jeito qualquer música. E quando mais rica a composição, mais cheia de sentido e interpretações distintas ela pode trazer. De tudo fica a mensagem de esperança.

Essa é minha interpretação que pode estar errada ou certa. Acredito que esteja pelo menos próximo do que Renato quis dizer, pois temos um contexto político como início e isso facilita tudo. Se tiver algum erro histórico ou de outro tipo, informe por favor nos comentários que ficarei feliz em corrigir.

Espero que tenham gostado. E esse é o primeiro de muitos posts que farei no Revista Cifras, a fim de encontrar a interpretação que os autores quiseram esconder nas Entrelinhas de seus versos.

Fontes de pesquisa:

por Renan Costa

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