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Opinião: O caso do assédio de Biel e a infeliz atitude de culpar a vítima

6/8/2016 12:59:36 PM
Desde o fim da última semana, Biel é um dos nomes mais falados pela imprensa e nas redes sociais. Uma repórter do portal iG, que prefere não ser identificada, denunciou o cantor por assédio sexual. De acordo com a jornalista, o artista chamou-a de "gostosinha" e disse que "a quebraria no meio" caso eles fizessem sexo, entre outras atrocidades.


Biel ainda não foi julgado e minha intenção não é decretar sentença para ninguém. No entanto, há duas evidências de que o cantor realmente assediou a jornalista. A primeira é o registro em áudio do diálogo entre ele e a repórter. A segunda é que o artista chegou a se manifestar sobre o caso nas redes sociais e não negou nenhuma acusação feita a ele: na verdade, ele reforçou que suas afirmações foram em tom de brincadeira e nem chegou a pedir desculpas publicamente.



Não me surpreende a postura de Biel em tratar assédio como brincadeira. Assusta e causa repulsa, é claro. Mas, infelizmente, não é surpresa. Ele é o tipo de cara que afirma ter beijado mais de 300 mulheres em apenas uma semana. Um artista que se promoveu a partir da aparência, do porte físico, do chamariz visual. Uma criação bizarra da indústria do entretenimento, preocupada em lançar ídolos efêmeros e rentabilizar tendências. Biel é, na verdade, o "adolescente" (entre aspas porque o sujeito tem 20 anos) comum do Brasil: machista, que trata mulheres fora do círculo familiar como descartáveis e despreparado para lidar com questões tão essenciais da sociedade.

Biel é uma criação sexualizada e midiática pronta para render. Vale, inclusive, um "mea culpa" em nome da imprensa: praticamente todas as aparições midiáticas do cantor são para falar de questões pessoais, como relacionamentos, aparência, fama e academia. As assessorias programaram para que o artista tratasse apenas disso e os veículos de comunicação compraram a ideia. Desde que Biel se tornou uma atração de conhecimento nacional, não me recordo de nenhuma entrevista onde ele falou de seu suposto produto principal, que é a música.



O que me deixa surpreso é que a repercussão do ocorrido tende a transferir a culpa para a vítima. Com a divulgação do áudio da conversa entre Biel e a jornalista, muitas pessoas afirmam que a repórter deveria ter "cortado" a atitude abusiva do cantor.

Há inúmeros motivos que justificam o porquê de a jornalista não ter cortado Biel. Falta de experiência profissional para lidar com uma situação do tipo sem comprometer o trabalho (ela tem apenas 21 anos), choque momentâneo ao se deparar com o ocorrido, estar cercada de homens que gargalhavam de cada afirmação abusiva, estar em um ambiente de suposta dependência onde ela precisa dele para concluir o serviço diário, intimidação por estar diante de uma celebridade com grande aporte midiático... são diversas circunstâncias.

Não cabe a nós nenhum julgamento sobre o suposto silêncio da repórter - apesar de uma pessoa que acompanhou a entrevista ter declarado ao portal R7 que ela estava visivelmente constrangida e sem graça com tudo aquilo. O ato foi denunciado e, judicialmente falando, já é o bastante.

Tratam como se a culpa de Biel ter cometido assédio sexual tenha sido da jornalista. Guardadas as devidas proporções, é como dizer que uma mulher é responsável por ter sido estuprada por um homem. Neste momento, a sociedade brasileira é machista demais para entender as distintas situações que levam mulheres a serem desrespeitadas, seja em corpo ou moral, diariamente.

A negligência de fãs e de pessoas comuns que acompanham o caso também se dá pelo fato de que a própria imprensa não dá o tratamento adequado para o ocorrido. A denúncia ganhou força nas redes sociais e ocupou pouco tempo de noticiários tradicionais, como em rádio e TV. Por ser um "queridinho da música pop", Biel ganhou um tratamento brando em veículos virtuais especializados no estilo. Sites que são referência no assunto se abstiveram do assunto.

A jornalista que fez a denúncia foi corajosa o suficiente para expor o caso, ao reportar às autoridades, mas sabe-se que a atitude dela não é comum no Brasil. Uma recente pesquisa realizada pela ONG ÉNois Inteligência Jovem, em parceria com Instituto Vladimir Herzog e o Instituto Patrícia Galvão, aponta que 77% das mulheres brasileiras já sofreram algum tipo de assédio sexual e 94% já foram assediadas verbalmente. Por diversos motivos, porém, os crimes não são denunciados para a polícia: seja por falta de provas, intimidação por parte do homem que cometeu a contravenção ou outros motivos, fica ainda mais difícil combater a cultura machista de nossa sociedade.

A culpa de um assédio sexual cometido por um homem contra uma mulher não pode ser dela. É dele. O julgamento cabe às autoridades competentes, no entanto, é incompreensível transferir a responsabilidade de um ato como esse para a jornalista. O assunto ainda é delicado no contexto nacional, mas, apesar de cada vez mais parecer utopia, tenho esperança de que os infelizes casos reportados nos últimos tempos sejam capazes de mudar a mentalidade brasileira com relação ao assunto.

por Igor Miranda

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