5 anos sem Chorão, o eterno desajustado do Charlie Brown Jr

O Charlie Brown Jr foi uma das poucas bandas brasileiras de rock a se manter em alta – relativamente – em um espaço de tempo curiosamente longo. E seu período de auge poderia ter sido ainda maior, não fossem os problemas internos que passavam diretamente por seu vocalista e líder, Chorão, cuja morte completa cinco anos nesta terça-feira (6).

Todos os trabalhos que o Charlie Brown Jr lançou entre 1997 e 2005 conquistaram, pelo menos, disco de ouro, segundo a Pro-Música Brasil (PMB). Depois disso, ainda emplacaram o hit ‘Só os loucos sabem’, cujo clipe é o mais visto da banda no YouTube – 90 milhões de visualizações ao todo. O disco de estreia, ‘Transpiração Contínua Prolongada’ (1997), acumula uma expressiva marca de 650 mil cópias vendidas – número raro a ser conquistado no Brasil, embora seja um pouco mais comum, nos Estados Unidos, entre os grandes artistas de lá.

Nos palcos, o Charlie Brown Jr continuou imponente e requisitado mesmo após toda a seção instrumental – o guitarrista Marcão, o baixista Champignon (também falecido em 2013) e o baterista Renato Pelado – terem saído em 2005. Aliás, Chorão foi a grande cola que fez uma formação inteiramente nova – com Heitor Gomes no baixo e André Pinguim na bateria, além do retorno de Thiago Castanho, que dividia o posto com Marcão até 2001 – funcionasse bem como a anterior.

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Apesar de ter conseguido reerguer o Charlie Brown Jr, Chorão nunca mais foi o mesmo a partir de 2005. Ele, que já havia perdido o pai em 2000, sentiu-se ainda mais triste após ter sido deixado pelos colegas músicos devido a “divergências contratuais”. Era o impulso que o vocalista precisava para entregar-se de vez às drogas. Embora tenha conseguido resolver o problema profissional/artístico, os demônios pessoais do cantor o venceram.

Em entrevista, a então esposa do cantor, Graziela Gonçalves – a “Grazon” do hit “Proibida pra mim” -, disse que Chorão ficou cada vez mais dependente da cocaína após o problema no Charlie Brown Jr. Os familiares do cantor chegaram a tentar interná-lo de forma involuntária. A relação entre Chorão e Graziela ficou muito tumultuada graças aos vícios do vocalista.

Marcão e Champignon chegaram a voltar ao Charlie Brown Jr em 2011 – Thiago Castanho e o baterista Bruno Graveto, que substituiu Pinguim, foram mantidos. Aparentemente, seria a oportunidade para Chorão se reestruturar em termos pessoais. Todavia, o vocalista ainda estava desequilibrado. Em 2012, ele chegou a fazer um discurso constrangedor contra Champignon, durante um show no Paraná, onde criticou a postura do baixista por, supostamente, ter voltado à banda “por dinheiro”. Dias depois, eles pediram desculpas um ao outro em vídeo.

Algo por trás dos palcos conduzia a situação de Chorão para algo trágico: também em 2012, sua esposa o deixou. Graziela explicou, em entrevistas posteriores, que tomou tal atitude para “tentar salvá-lo”.

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O efeito, aparentemente, foi reverso. Em meio a tantos problemas, Chorão foi encontrado morto no dia 6 de março de 2013, aos 42 anos. Ele foi vítima de uma overdose de cocaína em seu apartamento em São Paulo, onde, segundo Graziela, seria seu “reduto para consumo de drogas”.

Eterno desajustado, Chorão parecia cada vez mais fora de sua realidade. Ainda se parecia muito com o vocalista de 25 anos que havia explodido para o Brasil todo no fim da década de 1990. Mantinha, inclusive, hábitos que não eram condizentes para um “quarentão”.

Em entrevista concedida ao Cifras, o produtor Lampadinha, que trabalhou em diversos discos do Charlie Brown Jr, comentou que Chorão não diminuiu o ritmo de suas “diversões” – ou “refúgios”, sob o ponto de vista do viciado. “Você vai ficando velho, né? Quando você é moleque, toma 10 cervejas, quando é mais velho, toma cinco. Ele continuava na mesma pegada, aí foi o problema”, afirmou.

A sentença “Viva rápido, morra jovem” aplicou-se a Chorão de forma ingrata. E trouxe consequências até mesmo para Champignon, que cometeu suicídio em agosto de 2013. À revista Marie Claire, a viúva do baixista, Claudia Bossle, atribuiu a situação ao fato de que ambos não haviam superado suas brigas e às críticas que Champignon recebia, especialmente na internet, após tentar manter o legado do Charlie Brown Jr com o projeto A Banca.

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Cinco anos após sua morte, Chorão deixa saudades não só por quem foi e pelo que produziu para a música, mas, também, pela ausência de um substituto à altura no rock brasileiro. Também pudera: é difícil encontrar alguém com o mesmo talento e autenticidade que o eterno vocalista do Charlie Brown Jr.