Foto: divulgação

Angels Cry, o maior trabalho do Angra e do saudoso Andre Matos

O universo da música ficou chocado na tarde do último sábado, dia 8 de junho, ao receber a notícia do falecimento de Andre Matos. O cantor, pianista e maestro, ex-integrante do Angra e que estava no Shaman, tinha apenas 47 anos e deixou uma legião de fãs e admiradores não apenas no Brasil, mas no mundo todo.

Durante a semana, inúmeras homenagens foram feitas por seguidores e companheiros de profissão, o que só confirmou o tamanho da influência que ele teve na vida de muitas pessoas.

Andre Matos foi um dos pioneiros do heavy metal no Brasil e ajudou a abrir as portas para bandas nacionais no exterior. A sua extensa carreira conta com passagens pelas conceituadas bandas Viper, Angra e Shaman, três ícones da música pesada nacional conhecidas pela capacidade técnica de seus músicos, mas, sobretudo, pela voz marcante de Andre, que alternava entre tons altos e o canto lírico com certa facilidade, o que também pode ser notado em seu trabalho solo, que se iniciou em 2006, após o término do Shaman.

A maioria de seus trabalhos teve boa recepção por parte do público e da crítica, porém, foi com o Angra que Andre Matos viveu seus melhores momentos e gravou o disco mais marcante de sua vida, que acabou se tornando sua principal obra: “Angels Cry”, estreia da banda paulistana, lançado em 3 de novembro de 1993.

O álbum, gravado na Alemanha, foi um dos maiores sucessos já lançados por uma banda de metal brasileira, e o êxito atingido por “Angels Cry” se torna maior ainda pelo fato de que, na época, o power/progressive metal executado no álbum praticamente não existia no Brasil.

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Além dessas inovações, a mistura de ritmos nacionais com passagens de música clássica deu uma identidade maior ainda para o trabalho, possibilitando que o Angra se tornasse um nome único e de respeito além das nossas fronteiras. No Brasil, infelizmente, as coisas não foram tão fáceis, já que o mercado não era (e continua não sendo) muito amigo das bandas de heavy metal, tanto que o álbum só chegou aqui em 1995.

Antes de encantar os ouvidos, “Angels Cry” encanta os olhos com uma capa maravilhosa. Cores vibrantes dão o tom da paisagem de fundo para a tocante imagem que traz um anjo segurando algumas rosas. Um desenho repleto de classe, para acompanhar a qualidade das músicas presentes no disco. Aliás, a versão em LP torna o desenho mais belo ainda.

Musicalmente falando, o disco apresenta tudo o que pautou a carreira do Angra: velocidade, peso, melodia, técnica extrema, letras profundas e ótimas baladas, capazes de tocar até mesmo os corações mais insensíveis.

A primeira faixa é uma reprodução da introdução de “Unfinished Allegro”, sinfonia escrita pelo compositor Schubert, e abre caminho para a rápida “Carry On”, que se tornou o maior sucesso não apenas da banda, mas da carreira de Andre Matos. Com andamento rápido e mensagem positiva, é uma das músicas mais conhecidas do metal nacional e se tornou uma espécie de hino.

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O lado progressivo aparece na ótima “Time”, que começa lenta e vai ficando pesada, sem esquecer a melodia em nenhum momento. A faixa título, que vem na sequência, traz de volta a rapidez e conta com um arranjo de “Caprice 24” (composição do violinista Paganini), que torna o solo da canção algo apoteótico. Encerrando a primeira parte do disco, “Stand Away”, balada pesada que mostra todo o talento e alcance vocal absurdo de Andre Matos.

A segunda metade de “Angels Cry” começa com “Never Understand”, faixa que tem arranjos de “Asa Branca”, comporta por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Uma canção que mistura elementos do progressivo com power metal e a brasilidade que sempre acompanhou o Angra. É, sem dúvidas, um dos maiores destaques do disco.

Todo o talento e a versatilidade dos músicos do Angra fica evidente na sétima música do disco, “Wuthering Heights”, clássico da cantora Kate Bush baseado no romance de mesmo nome, que mistura amor e suspense. A interpretação emocionada de Andre Matos e o talento dos demais componentes transformaram a balada em uma das mais memoráveis e corajosas versões escritas por uma banda de metal.

Passado o instante emotivo, “Streets Of Tomorrow” aparece como um dos temas mais pesados do disco, com um desempenho exuberante por parte dos instrumentistas.

O ritmo continua acelerado em “Evil Warning”, que mistura de forma perfeita música clássica, heavy metal e um toque de cultura brasileira. A responsabilidade de fechar o disco fica com a emocionante balada “Lasting Child”, que tem clima de despedida e cumpre muito bem seu papel.

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A repercussão de “Angels Cry” rendeu bons frutos não apenas para o Angra, mas para todas as bandas brasileiras que estavam na ativa e as que vieram depois. Mesmo tantos anos após seu lançamento, continua sendo um dos mais emblemáticos, celebrados e simbólicos trabalhos já lançados por um grupo de metal nacional.

É claro que músicas tão belas e complexas só poderiam ter sido tocadas por grandes músicos. E o que fizeram Andre Matos, os guitarristas Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt, o baixista Luis Mariutti, além do baterista convidado Alex Holzwarth é digno de aplausos (o baterista Ricardo Confessori assumiu as baquetas após a gravação de “Angels Cry”).

Épico, virtuoso, brilhante e fundamental. Um disco que merece todos os adjetivos possíveis. Obrigatório não só para fãs de heavy metal, mas para todas as pessoas que gostam de música bem escrita e executada. Seja pelo gosto musical, seja para homenagear o legado de Andre Matos, aperte o play e curta essa maravilha chamada “Angels Cry”.

*O texto não reflete, necessariamente, a opinião do Revista Cifras.

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