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Metallica: a discografia comentada dos quatro cavaleiros

O Metallica é um dos maiores fenômenos do heavy metal. Formado em Los Angeles no início dos anos 1980 e capitaneado por James Hetfield (vocal/guitarra) e Lars Ulrich (bateria), o grupo ficou famoso no início da carreira por ser um dos criadores do thrash metal, estilo caracterizado pelo peso e velocidade das guitarras, além das letras ácidas, que tratam de temas como política, guerra e violência. Porém, apesar de alegrar os fãs de música pesada, com o passar dos anos, a banda passou por mudanças controversas, que deixaram o som mais leve e acessível.

Com uma carreira que chega perto dos quarenta anos, o Metallica arrasta multidões para suas apresentações. Um dos principais trunfos do conjunto para ter um público tão extenso é conseguir unir fãs das vertentes mais pesadas do metal com pessoas que não são exatamente ouvintes assíduas do estilo.

Essa união passa pelas já citadas mudanças sonoras que afetaram a banda durante sua trajetória. A discografia comentada vai te ajudar a entender melhor toda a história de uma das maiores bandas do planeta. Aperte o play e confira!

“Kill ‘Em All” (1983)

Após mudanças na formação inicial, o Metallica se estabilizou com James, Lars, o guitarrista Kirk Hammett e o baixista Cliff Burton. O talentoso quarteto entrou em estúdio e, em julho de 1983, nascia o primeiro álbum da banda, “Kill ‘Em All”.

O disco chama a atenção pelo forte título (“mate todos eles”) e pela capa. Musicalmente falando, é um registro muito rápido, de batida acelerada.  A mistura da velocidade oriunda do punk rock com o peso do heavy metal apresentou ao mundo um estilo chocante: o thrash metal, que se tornou uma febre mundial, apesar de não contar com o apoio do rádio, tampouco da TV.

Todas as músicas do álbum são ótimas, com grande destaque para “Seek And Destroy”, com seu grande riff. Outras faixas interessantes são “The Four Horsemen”, “Motorbreath”,  Jump In The Fire” e “(Anesthesia) Pulling Teeth”, que é um icônico solo de baixo executado por Cliff Burton.

Sem dúvidas, é um dos lançamentos mais impactantes e influentes da música pesada. Se o Metallica precisava de um bom início para trilhar um bom caminho, “Kill ‘Em All” cumpriu muito bem sua tarefa.

“Ride The Lightning” (1984)

Pouco tempo depois de conseguir uma legião de fãs, o Metallica lançou “Ride The Lightning”, seu segundo álbum. O título é uma expressão utilizada por detentos dos Estados Unidos para se referir aos condenados à morte na cadeira elétrica – e o conceito é retratado na arte da capa.

A evolução musical é nítida e pode ser notada tanto no aspecto instrumental quanto no lírico. As características básicas do som continuam presentes, porém, as harmonias melódicas começaram a aparecer mais vezes. As letras ficaram um pouco mais elaboradas, tratando de temas que iam desde a guerra até a Bíblia. O som da banda já não era mais tão “inconsequente” como foi no primeiro lançamento, mas continuava furioso.

Nesse disco, aparece a primeira balada da carreira do Metallica, “Fade To Black”, que tem uma melodia bela, melancólica e pesada. Sua letra versa sobre um problema que continua atingindo milhões de pessoas até hoje: o suicídio.

A pesada “Fight Fire With Fire”, a bem-sucedida “For Whom The Bell Tolls”, a intensa “Creeping Death” (que é baseada nas pragas do Egito, passagem do livro bíblico êxodo, que narra a história do povo hebreu, escravizado pelo Faraó, e posteriormente, libertado) e a ótima instrumental “The Call Of Ktulu” são os principais destaques do álbum, que tornou o grupo muito mais famoso e respeitado.

“Master Of Puppets” (1986)

Até hoje considerado por muitos fãs e críticos como o ponto alto do Metallica, o terceiro disco da banda é, de fato, o mais bem trabalhado, sólido e coeso da banda até então.

O início com a ótima “Battery” é um ótimo cartão de visitas para uma seqüência de ótimas músicas. A faixa título, que fala sobre como as drogas manipulam o usuário, é o carro-chefe do disco e uma das bandeiras não apenas do Metallica, mas do thrash metal.

A aterrorizante “The Thing That Should Not Be” é um dos momentos mais pesados que a banda já registrou. “Welcome Home (Sanitarium)”  tem alguns toques de rock progressivo, com suas mudanças de andamento e clima.

A segunda parte do disco não fica devendo nada para a primeira, já que “Disposable Heroes”, a controversa “Leper Messiah” (uma crítica aos líderes religiosos que enriquecem na base da fé alheia) e “Damage, Inc.” são verdadeiras paredes sonoras, de tão pesadas e intensas.

A instrumental “Orion” merece um parágrafo especial. A música é um verdadeiro show de Cliff Burton – que, curiosamente, não teve tempo de tocá-la ao vivo, já que faleceu tragicamente no dia 27 de setembro de 1986, após o ônibus da banda capotar na pequena cidade de Ljungby, no sul da Suécia. A morte prematura e trágica do baixista quase ocasionou o fim das atividades do Metallica e ofuscou um pouco o brilho do disco, mas nada que tire de “Master of Puppets” o título de um dos maiores lançamentos da história do heavy metal.

Um álbum fundamental em qualquer discografia, que fecha com chave de ouro o primeiro ciclo da história do Metallica.

“…And Justice For All” (1988)

Após vários testes para encontrar um baixista, o escolhido para substituir Cliff Burton foi Jason Newsted, que tocava na banda Flotsam And Jetsam. O primeiro disco da banda com o novo integrante é “…And Justice For All”.

Não foi só a formação do Metallica que mudou, já que a sonoridade ganhou alguns elementos novos: as músicas ficaram mais intrincadas, longas e até mesmo obscuras. A temática lírica passeou entre a complexidade da mente humana e a liberdade de expressão, passando pela política e injustiça. Infelizmente, a produção do disco é bem fraca e deixou o som do baixo inaudível.

Pela primeira vez, o Metallica lançou um clipe, para a ótima “One”, que até hoje é uma das maiores composições da banda. Se por um lado, o vídeo ajudou a popularizar o trabalho do Metallica, por outro, fez os fãs mais radicais começarem a falar que o grupo estava se vendendo.  Para muitos, aliás, o Metallica perdeu a sua essência nesse disco.

Os novos horizontes explorados pela banda dividiram opiniões e, pela primeira vez, um disco do Metallica causou polêmica. De qualquer forma, conta com ótimas músicas, como a apocalíptica “Blackened”, a faixa título, “Harvester Of Sorrow” e a instrumental “To Live Is To Die”, que é uma homenagem ao falecido Cliff Burton.

Um grande disco, que serviu de transição para o próximo (e maior) salto na carreira da banda.

“Metallica” (1991)

O álbum autointitulado do Metallica (também conhecido como “Black Album”, por causa da capa) é o seu maior sucesso comercial. O disco define bem a fórmula da banda: competência, segurança e uma capacidade imensa de criar sucessos.

Porém, o som brutal dos primeiros dias foi lapidado e ganhou contornos hard rock, por influência do produtor Bob Rock e desejo da própria banda. Os fãs mais antigos detestaram a  proposta musical do Metallica, mas, ao mesmo tempo, milhões de pessoas começaram a acompanhar de perto o trabalho da banda.

É claro que o som executado ainda podia ser classificado como metal, mas com um pouco mais de classe. Pode-se dizer que o Metallica trocou as calças jeans rasgadas por roupas sociais, afinal, seria necessário um traje adequado para a banda invadir lugares onde nunca havia estado antes com tanta freqüência: a MTV e emissoras de rádio.

“Enter Sandman”, “Sad But True”, “The Unforgiven”, “Wherever I May Roam” e “Nothing Else Matters” tornam o álbum praticamente uma coletânea de sucessos. Ainda sobra espaço para “Don’t Tread On Me”  e a sensacional “The God That Failed” – esta última, mostrando que a banda ainda era capaz de fazer música pesada.

O disco rompeu barreiras e colocou o Metallica no topo do mundo.

“Load” (1996)

O “Black Album” rendeu uma longa e cansativa turnê e, em 1994, o Metallica resolveu dar uma pausa para refrescar as ideias. Então, em 1996, é lançado o sucessor do maior êxito comercial da banda. E se a expectativa em torno do seu lançamento era grande, a decepção que “Load” causou foi algo enorme.

Mais uma vez, o Metallica mudou sua sonoridade e “Load” não lembra nada da banda que havia lançado o clássico “Master Of Puppets”. A aposta em uma sonoridade alternativa foi um prato cheio para aqueles que acusavam a banda de ter se vendido.

Para completar o cenário caótico, os membros da banda mudaram radicalmente o visual, o que sepultou a reputação da banda perante os ouvintes menos tolerantes. A country “Mama Said” ajudou bastante nesse processo, aliás.

É verdade que algumas músicas do álbum podem ser indigestas, mas se você esquecer que é o Metallica que está tocando, vai conseguir se divertir com “Ain’t My Bitch”, “Until It Sleeps”, “2×4”, “King Nothing” e “Hero Of The Day”.

A chave do sucesso para o ouvinte é ignorar que o rock alternativo do álbum foi escrito por uma banda que anos antes havia lançado discos seminais do metal. O problema é conseguir virar essa chave. “Load” é polêmico, diferente, mas não chega a ser de todo ruim, além de cravar de vez o nome do Metallica no mainstream.

“Reload” (1997)

Como muitas músicas que foram escritas para “Load” não couberam no disco, o Metallica resolveu compilar as canções que ficaram de fora em “Reload” (1997), que conseguiu a proeza de agradar menos que o seu antecessor.

A estrutura das músicas é basicamente a mesma, porém, “Reload” parece ter ficado com as composições menos inspiradas. É um dos álbuns mais fracos do Metallica e, em alguns momentos, chega a parecer o trabalho de uma banda iniciante que não sabe para onde vai.

Apesar de ser praticamente descartável, restam alguns momentos, como a animada “Fuel”, “The Memory Remains” e “The Unforgiven II”.

“Garage Inc.” (1998)

As coisas não andavam muito legais para o Metallica, então, a banda resolveu lançar um álbum duplo apenas com covers.

O primeiro disco traz versões inéditas e mais pesadas para clássicos do Black Sabbath, Lynyrd Skynyrd e Mercyful Fate, entre outras bandas que influenciaram o Metallica.

O disco 2 é uma compilação de covers gravados anteriormente e, entre os grupos homenageados, estão Queen, Misfits e Motorhead. Um trabalho correto, que se não salvou a pele da banda por completo, ao menos não piorou a situação.

“S&M” (1999)

Com a barra um pouco mais limpa, o Metallica mais uma vez inovou e gravou um álbum ao vivo com a Orquestra Sinfônica de San Francisco. Depois de duas apresentações em abril, os shows viraram um álbum duplo, intitulado “S&M”.

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O resultado do disco é espetacular e todas as músicas escolhidas se encaixaram perfeitamente nos arranjos da Orquestra. Um grande disco, que colocou mais uma vez o nome da banda em evidência.

“St. Anger” (2003)

Já fazia seis anos que o Metallica não lançava nenhum disco de músicas próprias e os fãs se dividiam entre a apreensão e o medo de uma nova decepção.

O primeiro golpe foi a saída de Jason Newsted, em 2001. Como se não bastasse, James Hetfield estava passando por um período de reabilitação, por conta de seus problemas com álcool e drogas.

Após inúmeros percalços, “St. Anger” foi lançado e se tornou o mais polêmico disco da banda. Até mesmo os fãs mais tolerantes, que abraçaram o Metallica nos anos 1990, começaram a perder a paciência com as inovações, que, dessa vez, deram errado.

As músicas trazem o que há de mais genérico no chamado nu metal e o que se ouve é um apanhado de composições sem o mínimo de criatividade, com um falso peso, sem solos de guitarra e, para temperar tudo, uma produção horrível, com o famoso “som de lata” na bateria.

Talvez, com uma produção mais adequada, músicas como a faixa título, “Some Kind Of Monsters’ e “Frantic” poderiam ser consideradas boas composições, mas não é o caso. Sem dúvida, é o maior fiasco do Metallica.

“Death Magnetic” (2008)

Quando menos era esperado, o Metallica conseguiu resgatar a sua imagem com um ótimo trabalho. Mesmo que seja batido, é correto afirmar que os músicos resgataram suas origens em “Death Magnetic”.

É claro que o álbum em questão não é nenhum “Master Of Puppets”, mas passa longe da catástrofe que foi o disco anterior. Os riffs pesados estavam de volta, a voz de James estava bem melhor, a bateria estava audível e o baixista Robert Trujillo (ex Suicidal Tendencies e Ozzy Osbourne), escolhido para substituir Jason Newsted logo após “St. Anger” ter sido gravado, se mostrou uma ótima escolha para ocupar o posto de baixista.

Músicas como “That Was Just Your Life”, “All Nightmare Long”, “The End of The Line”, “The Day That Never Comes” e “The Unforgiven III” mostraram ao mundo que o Metallica estava vivo e que mesmo após todas as derrapadas, era capaz de fazer um trabalho pesado sem soar nostálgico ou caricato.

Todas as tentativas da banda tentar soar mais moderna antes desse disco falharam, porém, em “Death Magnetic”, o Metallica conseguiu encontrar o ponto de equilíbrio entre sua identidade e a evolução da música pesada ao longo dos anos.

“Hardwired… To Self-Destruct” (2016)

Em time que está ganhando, não se mexe: foi assim que o Metallica agiu após o sucesso de “Death Magnetic”. O trabalho seguinte, “Hardwired… To Self-Destruct”, aposta novamente em um som que mescla influências do metal mais moderno com thrash metal oitentista, mas sem se perder pelo meio do caminho.

Os grandes momentos do disco ficam por conta de “Atlas, Rise!”, “Hardwired” (que abre o disco com muita potência), “Moth Into Flame” e “Halo On Fire”. Tal qual seu antecessor, não é nenhum clássico absoluto do Metallica, mas passa ileso no final das contas e mostra momentos de inspiração. Um bom disco, que ajudou a banda voltasse a figurar no lugar de onde nunca deveria ter saído: o hall das maiores da história.

O Metallica enche estádios ao redor do mundo e, conforme dito no início do texto, consegue ter desde os fãs mais extremistas até os menos fanáticos por música pesada.

Por quais razões? Basicamente, porque nunca teve medo de mudar e sempre fez o que teve vontade. Algumas vezes, essa autenticidade custou caro e custou a fidelidade de alguns fãs, mas isso nunca fez, e nunca fará o Metallica se repetir ou voltar atrás. Afinal de contas, eles são os quatro cavaleiros e fazem o que querem!

*O texto não reflete, necessariamente, a opinião do Revista Cifras.

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