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Os 20 anos de ‘Só no Forévis’, o maior clássico do Raimundos

Quem viveu a década de 1990 no Brasil se lembra bem do que fazia sucesso nas paradas musicais naqueles dias: pop music, sertanejo e pagode. Porém, uma banda de rock nacional conseguiu invadir estações de rádio e emissoras de TV, mesmo fazendo um som pesado, com letras agressivas e um visual despojado: o Raimundos, especialmente graças ao álbum “Só no Forévis” (1999).

O que veio antes de ‘Só no Forévis’

Formado em Brasília no final dos anos 1980 por Digão (guitarra), Rodolfo (vocal), Canisso (baixo) e Fred (bateria), o Raimundos tinha como principal influência o Ramones e investia na ousada mistura de punk e hardcore com elementos da música brasileira, como o baião e forró. Toda essa salada era temperada com letras ácidas, recheadas de palavrões e insinuações sexuais.

Após anos tocando no circuito alternativo, o Raimundos lançou seu primeiro disco em 1994. O álbum que leva o nome da banda chocou público e crítica pela curiosa união de guitarras pesadas e conteúdo lírico que andava na linha entre o humor e a falta de bom senso.

Algumas músicas se tornaram clássicas e são grandes sucessos até os dias de hoje, como “Nega Jurema”, “Puteiro em João Pessoa”, “Selim” e “Bê a Bá”. Apesar de polêmico, foi um grande sucesso de vendas e ajudou a abrir portas para muitas bandas de rock que estavam iniciando a caminhada.


Em novembro de 1995, sai o segundo disco da banda, “Lavô Tá Novo”, que deixa um pouco o forró de lado e investe mais no peso, chegando a ter influências até mesmo de heavy metal. As letras ainda eram sarcásticas, baseadas no velho tripé composto por sexo, drogas e rock n’ roll. O grande destaque fica por conta da balada “I Saw You Saying (That You Say That You Saw)”, que, acredite se quiser, fez a banda se apresentar no programa da Xuxa.

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O sucesso do Raimundos só aumentava e, em 1997, é lançado “Lapadas do Povo”, que foi gravado nos Estados Unidos. O som mostra grande evolução e as letras apresentam fortes críticas sociais, como bem mostra “Baile Funky”.

Apesar de bem produzido, o disco não vendeu o esperado. Para piorar a situação, oito pessoas morreram durante um show da banda na cidade de Santos, o que, obviamente, abalou todos os integrantes.

A volta com ‘Só no Forévis’

Após um período de turbulências e incertezas, o Raimundos resolveu apostar na fórmula que havia dado certo nos primeiros discos: escracho e melodias mais simples. No dia 27 de maio de 1999, é lançado o que se tornou o maior sucesso comercial da carreira do grupo: “Só no Forévis”.


A capa do disco chama a atenção pela sátira ao visual exagerado dos cantores de pagode, estilo que fazia muito sucesso na época. Porém, o bom humor não se limitou apenas ao campo visual: a música que dá título ao álbum e é a primeira da lista de faixas, por exemplo, é um pagode mal tocado e acompanhado por arrotos.

Depois da insana introdução, “Mato Véio” é uma composição típica do Raimundos: rápida, satírica, com melodia grudenta. “Carrão de Dois” segue a mesma receita e funciona muito bem. Já a faixa seguinte, “Fome do Cão”, é pesada e lembra muito o som apresentado em “Lapadas do Povo”. O assunto tratado na letra é um problema que fez parte da banda por muito tempo: o uso de drogas.

A quinta música de “Só no Forévis” é o maior êxito da carreira do Raimundos – afinal de contas, quem nunca cantou “Mulher de Fases”? A melodia grudenta, a letra de fácil assimilação e o cativante refrão levaram o Raimundos de volta ao estrelato. Sem dúvidas, é o carro-chefe do disco e a responsável pelo “renascimento” da banda.

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Outro grande momento do disco é “A Mais Pedida”, uma balada acessível e grudenta, nos moldes da já citada “I Saw You Saying (That You Say That You Saw)”. A letra da canção fala sobre a busca apelativa pelo sucesso. Ironicamente, acabou se tornando um grande hit comercial e podia ser ouvida em diferentes estações de rádio e programas de TV.

Porém, nem tudo são flores e “Boca de Lata”, apesar de ter agradado os fãs mais novos, é um rap de letra descartável, que não agrega em nada. A derrapada é sucedida por “Me Lambe”, que também repercutiu bastante. Mesmo sendo um rock agradável, a letra é um tanto pesada.

“Pompém”, que tem um grandioso refrão, traz o peso de volta. Os versos de protesto também deram o ar da graça em “Deixa Eu Falar”, que pede mais liberdade de expressão e tem as participações de Black Alien (Planet Hemp) e Alexandre Carlo (Natiruts).

Apesar de “Só no Forévis” ter amplificado o sucesso do Raimundos, foi inacreditável quando eles conseguiram emplacar um hit em trilha sonora de novela: a balada rockeira “Aquela”, que fez parte do folhetim global “Uga Uga”.

O final do disco traz a hardcore “Língua Presa”, que remete aos velhos tempos onde era necessário ler o encarte para entender o que Rodolfo canta. Uma versão acústica de “Mulher de Fases” encerra os trabalhos de forma muito interessante, porém, não é recomendável ouvir o que se tem depois dos últimos acordes.

Poucas vezes uma banda de rock brasileira lançou um disco tão bem sucedido quanto “Só no Forévis”. Talvez o único fenômeno parecido ocorreu com o primeiro e único trabalho dos saudosos Mamonas Assassinas.

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Obviamente, uma tour gigantesca percorreu o Brasil, enlouquecendo milhões de fãs de rock e de outros estilos, que faziam todo o esforço possível para ouvir “A Mais Pedida” ou “Mulher de Fases” ao vivo. Para coroar a ótima fase, inclusive, foi lançado o disco duplo “MTV Ao Vivo” em 2000.

Desfecho inesperado

Milhões de discos vendidos, shows em todo o Brasil, fãs enlouquecidos, músicas tocando em todo lugar: tudo conspirava para que o Raimundos atingisse um patamar elevado e se tornasse um fenômeno maior do que já era.

No entanto, as coisas não foram bem assim. Por razões pessoais, o emblemático vocalista Rodolfo Abrantes abandonou o posto, o que deixou os seguidores da banda decepcionados.

Por mais que o Raimundos ainda esteja na ativa, é inegável que as coisas nunca mais foram as mesmas após a saída de Rodolfo.

Legado

Mesmo depois de duas décadas, “Só no Forévis” continua sendo muito ouvido e lembrado. No fim das contas, o álbum causa um misto de sensações: por um lado, é um trabalho memorável; por outro, ficou marcado como um triste final.

Seja como for, continua sendo um dos maiores álbuns de rock nacional que o Brasil viu nascer e ainda é influente para um número enorme de bandas mais jovens. Não é exagero afirmar que se trata de um divisor de águas e o primeiro disco de música pesada para muitas pessoas.

“Só no Forévis” é um clássico que merece ser ouvido e respeitado.

*O texto não reflete, necessariamente, a opinião do Revista Cifras.

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