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Entrevista: Fe Ribeiro mergulha na trap music em seu novo álbum, ‘7773’

Até poucos anos atrás, definir-se como um artista independente – ou seja, sem contrato com grandes gravadoras – era quase sinônimo de “carreira sofrida”, já que não dava para ter muita projeção sem os ricos investimentos dos principais selos musicais. Com as recentes mudanças na distribuição musical e equipamentos de gravação mais acessíveis, classificar-se como um artista independente nos dias de hoje equivale ao sentido que deveria ter: apenas independente – e pronto.

É o caso de Fe Ribeiro, cantor de São Paulo que, mesmo sem uma grande gravadora por trás, já apresenta suas credenciais para se tornar um nome de destaque na trap music, gênero que, em uma explicação básica, mistura de hip hop com música eletrônica. O estilo ainda está engatinhando no Brasil, com poucos artistas conhecidos – alguns deles são Recayd Mob, Diego Thug e Raffa Moreira –, mas tem potencial para crescer.

Além de pouca concorrência, Fe Ribeiro pode chamar a atenção entre os fãs de trap graças, obviamente, ao trabalho musical. Seu álbum mais recente, intitulado “7773”, foi lançado no fim de 2018 por seu selo independente, o 7773 Music. O registro é recheado de participações: MC Dede na música “Sexta-Feira”, Don Pixote (da família Racionais) em “Drugs in the Club”, Negrini na faixa “Dama da Noite”e Pinhoti, vocalista da banda Fun7, em “Nunca Mais”. Por autogerenciar sua carreira e ter seu próprio selo e estúdio, Fe Ribeiro larga na frente de outros artistas.

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Em entrevista exclusiva ao Revista Cifras, o artista revelou que começou na música ainda adolescente e, em viagem aos Estados Unidos, despertou seu interesse em produção musical. Depois, fez o curso de Produção Musical em São Paulo. “De 200 pessoas que tinham no começo do curso, umas 40 se formaram. E eu era uma delas. Aprendi a produzir, mixar, masterizar, tocar, enfim, a discotecar… foi um período da minha vida de muito aprendizado. Além de ser artista, ter carreira como cantor, também me vejo como produtor e empreendedor nesse meio”, afirmou.

O conhecimento geral sobre o “business” da música traz um diferencial para Fe Ribeiro, mas o que realmente importa é a música. E, nesse quesito, “7773” pode agradar a quem gosta de uma abordagem mais pop dentro do trap, mas sem abandonar os elementos de hip hop e música eletrônica. O álbum se destaca pelo uso de batidas sólidas e por não abrir mão de refrães, mesmo quando esse parecia ser o caminho artisticamente mais óbvio.

“A repercussão do álbum está muito positiva”, afirmou Fe Ribeiro. “Eu tô fazendo mais shows, como nunca fiz. Recebi muitas mensagens das pessoas notando a mudança do meu estilo, dos beats, e da maturidade das letras. Tô muito feliz com o trabalho. Os contratantes já me veem com outros olhos”, completou.

Guinada ao trap

Quando Fe Ribeiro comenta que muitas pessoas notaram “a mudança do estilo”, o cantor faz menção ao seu primeiro álbum, “Não Volto Atrás”, lançado em 2016. Neste registro inicial, praticamente não havia influência da música eletrônica – tanto que foram usados instrumentos convencionais em vez de batidas e recursos digitais.

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Fã de hip hop desde sempre, Fe Ribeiro percebeu que o trap tinha pouca representatividade entre os artistas brasileiros, embora fosse fenômeno no mundo todo. “De uns anos pra cá, o hip hop, que engloba a trap music, se tornou o estilo de música mais ouvido no mundo, passando o pop. Meu primeiro contato com a música foi com o rock, por causa do meu pai, mas sempre ouvi rap. E por conta das minhas viagens para o exterior, ficava muito ligado nessa cultura, que é mais forte por lá. Percebi que tudo que acontece nos Estados Unidos, vem ao Brasil com certo atraso. Sempre tive essa percepção de mercado. Não digo que fui pioneiro, mas identifiquei que teria uma crescente, até porque há artistas brasileiros fazem isso muito bem. Quis adaptar ao meu estilo”, afirmou.

Apesar de “7773” ser um álbum predominantemente de trap music, Fe Ribeiro prefere não se fechar no estilo. “Eu me vejo como um artista independente. Sou um artista pop. Canto por opção. Não me vejo fechado, tipo ‘Fe Ribeiro é trap’, ‘Fe Ribeiro é rapper’. Sou músico e acho que misturei um pouco de estilos nesse álbum”, disse, também citando o funk e o pop.

Futuro promissor em duas vias

Fe Ribeiro entende que tem espaço para crescimento tanto para sua música quanto para seu trabalho como produtor, no selo 7773 Music, que trabalha com artistas como Filipe Rer, Denis Pinhoti e Recayd Mob, entre outros, além de ter o produtor Caio Passos e o DJ Milk. O atual formato de reprodução e distribuição musical, com mídias sociais e plataformas de streaming, faz com que o selo tenha se tornado um sonho viável.

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“Hoje, temos algo muito grande que não existia lá atrás, que é a internet. Essa divulgação que o artista independente pode ter, de ter contato direto com o público. Investi uma nota para mandar fazer um monte de CDs do ‘Não Volto Atrás’ e eles estão parados na minha casa. Temos o streaming e a pessoa ouve no celular. É assim que sou remunerado. Não preciso colocar o CD na loja, vender milhões de cópias. A gravadora serve como sua empresária, mas todas elas querem te sugar, com contratos ruins. Hoje, vejo que consigo fazer sozinho e estou tranquilo com isso”, afirmou.

Fe Ribeiro – “7773” (2018)

Lista de faixas:

1. 7773
2. Não Tava Nos Planos
3. Duplex
4. Sexta-Feira (com MC Dede)
5. Dama da Noite (com Negrini)
6. Drugs In The Club (com Don Pixote)
7. Nunca Mais (com Pinhoti)

Igor Miranda é jornalista que escreve sobre música desde 2007 e com experiência na área cultural/musical. Contato: [email protected]

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