Foto: Haruo Kaneko / divulgação

Entrevista: Projota manda recado forte com nova música, ‘Sr. Presidente’

Se você tivesse uma oportunidade de mandar uma mensagem para o presidente do Brasil, o que diria? O rapper Projota enviou o recado dele com rimas bem feitas e melodia envolvente por meio de sua nova música, “Sr. Presidente”, lançada nesta quinta-feira (16) como single nas plataformas digitais e com direito a um videoclipe bastante climático.

Em meio a tantos problemas vivenciados pela sociedade brasileira, o recado nas rimas de Projota (leia a letra ao fim desta matéria) só poderia expressar um tom de indignação. Apesar disso, o rapper mantém suas esperanças de que mudanças podem acontecer. Em entrevista exclusiva ao Revista Cifras, ele falou sobre sua inspiração para “Sr. Presidente”, comentou a situação atual do Brasil e conversou um pouco sobre a sua carreira de glórias, que o alçou entre os principais nomes do hip hop brasileiro da década.

Assista ao clipe de “Sr. Presidente” a seguir:

Projota contou, inicialmente, que “Sr. Presidente” não é direcionada para o atual presidente da República, Michel Temer, nem a nenhum político em especial. “Faz tempo que tive essa ideia. Nem era esse presidente de agora, sabe? Não é uma música para um presidente em si, é uma carta para o presidente do Brasil. A gente está sofrendo, está difícil a nossa situação… e aí, você pode fazer alguma coisa?”, afirmou o artista, que cita, ainda, o clássico do rock nacional “Que país é este?” (Legião Urbana) como uma inspiração – “infelizmente, a música faz sentido até hoje”, pontuou.

Para enviar sua mensagem de forma certeira, Projota trabalhou em “Sr. Presidente” a partir de uma melodia de violão assinada por seu parceiro de composição, Tom Leite. “A música tem uma batida bem forte, mais para crua do que cheia”, disse o rapper, que destacou, também, que não dava para fazer uma canção de tal temática com um viés mais comercial, como o adotado nos hits anteriores “Ela só quer paz” e “Linda”. “Não dá para fazer uma música chamada ‘Sr. Presidente’ que ficasse tão comercial quanto o que toca no rádio, mas, na hora de trabalhá-la, fizemos o possível para que se encaixasse”, afirmou.

Foto: Agência Brazil News / divulgação

Como era de se esperar, o clipe de “Sr. Presidente” acompanha a mensagem de protesto da letra, além de reforçar que os problemas vivenciados pelo Brasil são históricos. “O clipe tem projeções de imagens, recortes de jornais e vídeos de várias situações do país ao longo dos anos, desde o descobrimento até hoje. É uma forma de mostrar que a música não fala sobre hoje. O que essa letra diz, eu poderia cantar desde que comecei a ouvir música”, disse Projota.

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Apesar de todos os problemas vivenciados pelo Brasil, o rapper entende que o momento de lançamento de “Sr. Presidente” foi oportuno, pois o público deve se atentar às próximas eleições, marcadas para acontecer para o mês de outubro. “Está começando a onda dos debates, então, é um ótimo momento, principalmente para os mais jovens se engajarem mais, sabe? Estarem mais atentos aos detalhes, estudar os candidatos, porque é o futuro do país. Não adianta reclamar depois. Tudo depende da nossa luta hoje. Se você acredita em um candidato, você tem que defender os ideiais dele também hoje – sem violência, sem agressividade, com educação, se não, você não ganha voto nenhum para o seu candidato”, afirmou.

Música e política

Projota não foi o primeiro, nem será o último a fazer uma música de tom político no Brasil. Ainda assim, a iniciativa do rapper é rara entre os artistas mais famosos do país. Não há grandes cantores ou músicos do sertanejo, pop ou mesmo do funk contemporâneo – os três ritmos “em alta” nacionalmente – abordando o tema. Historicamente, o hip hop aborda a sociedade em suas letras – o que encaixou o estilo como “arte de protesto” em um primeiro momento –, mas até os nomes atuais do gênero têm se distanciado de críticas mais pontuais à realidade.

Apesar de ter optado por se manifestar diante do caos sócio-poítico do Brasil, Projota entende que nem todos os artistas precisam falar sobre o assunto em suas músicas. “Vejo isso como algo muito pessoal. Quando eu tinha 15 anos, comecei a ouvir rap, e ele ‘falou’ comigo porque eu já tinha essa necessidade de reclamar, essa insatisfação dentro de mim – se não, só teria ouvido. Nem todos têm isso dentro de si. É algo natural entre os rappers, pois já vem de sua raiz, mas entendo outros artistas que não queiram se posicionar”, afirmou.

A mesma visão de Projota a respeito da música como um todo se estende para o universo do rap, onde as letras de protesto são mais frequentes, mas não tanto como no passado. “Quando o rap começou, todos seguiam esse tema. Com a minha geração, abriu o leque para outros temas, mas não deixando de falar sobre isso. Hoje, temos uma geração que traz outros temas. O Djonga, por exemplo, é um cara muito bom. O Froid é fantástico também, assim como o Choice, no Rio de Janeiro. Tem uns meninos novos chegando pesado, com letras fortes, batidas fortes, técnica mais apurada do que tínhamos. Boto muita fé nessa nova geração”, disse.

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Por outro lado, o rapper acredita que “Sr. Presidente” traz uma mensagem universal. “A música não tem partido, cor ou sigla, apenas levanta a bandeira do Brasil e fala sobre uma insatisfação. E eu acho que todos estamos insatisfeitos. Mesmo os artistas que estão ganhando dinheiro, porque pensam que poderiam estar ganhando um pouquinho mais”, disse, com risos ao fim.

“Romântico?”

Não é raro ver Projota sendo classificado como um representante do “rap romântico”. O “rótulo” veio graças a alguns de seus maiores sucessos, como “Ela só quer paz”, “Mulher feita”, “Cobertor” (parceria com Anitta) e “Linda” (com Anavitória).

Apesar de ter destacado a necessidade das pessoas em “separar as coisas todas em prateleiras”, Projota entende que os rótulos na música devem cair em desuso com o passar dos anos. “Isso vai diminuir cada vez mais, vai chegar em um ponto onde isso vai acabar? Essa nova geração não tem mais tribo. Não tem tribo dos skatistas, do reggae, hip hop, pagode. Todos ouvem de tudo: quem ouve sertanejo, também ouve o rap, o funk, entre outros. Mas, hoje em dia, convivemos com isso. É uma cultura de ‘dividir’, colocar cada coisa no lugar, quando, na verdade, não tem lugar: sou músico, nasci com o dom da música”, afirmou.

Para justificar seu ponto, Projota contou que seu começo na música aconteceu em outro estilo. “Em algum momento, o rap me chamou a atenção, mas poderia ser o rock. Eu escrevi rock antes de começar a fazer rap. O tempo passa e você vai para outros caminhos. Tem que se estar aberto a isso”, disse o artista, que tem sua própria carreira como exemplo: ele já gravou não só com as já citadas Anavitória e Anitta, como, também, com Rashid, Karol Conká, Haikaiss, Mano Brown, Negra Li, Marcelo D2, J Balvin e Dado Villa-Lobos.

Confira, abaixo, a letra de “Sr. Presidente” na íntegra:

“A gente paga pra nascer paga pra morar
Paga pra perder a gente paga pra ganhar
Paga pra viver paga pra sonhar
A gente paga pra morrer e o filho paga pra enterrar
Vontade a gente tem mas não tem onde trabalhar
Justiça a gente tem mas só pra quem pode pagar
Coragem a gente tem mas não tem forças pra lutar
Então a gente sai de casa sem saber se vai voltar

E aí vem vocês pegar o que é nosso direito
Crime não é mais crime quando é um crime bem feito
Viver dessa maneira é algo que eu não aceito
Enquanto isso o povo chora sem ter onde morar
Mas existe uma chama acesa dentro do peito
Porque já não dá mais pra se viver desse jeito
Quando o povo explodir vai ser só causa e efeito
Efeito que abastece meu pulmão e me dá forças pra cantar

Sr. Presidente, esse país tá doente
Nosso povo já não aguenta mais
Sr. Presidente, como você se sente
Ao ver a fila dos nossos hospitais?
Sr. Presidente, até queria que a gente
Se entendesse mas não sei como faz
Porque essa noite se foi mais um menino ali na rua de trás

Esse é o meu país tão lindo que não tem furacão
De um povo que ainda segue órfão do seu pai da nação
De uma pátria mãe solteira da sua população
Onde o salário vale menos do que o preço do pão
Dorme um menino de rua descansando seus pés
Viajando pra lua num papelote de 10
Oh pátria amada e mal amada por filhos infiéis
Digas quem te comandas que eu te digo quem és

E aí vem vocês pegar o que é nosso direito
Crime não é mais crime quando é um crime bem feito
Viver dessa maneira é algo que eu não aceito
Enquanto isso o povo chora sem ter onde morar
Mas existe uma chama acesa dentro do peito
Porque já não dá mais pra se viver desse jeito
Quando o povo explodir vai ser só causa e efeito
Efeito que abastece meu pulmão e me dá forças pra cantar

Sr. Presidente, esse país tá doente
Nosso povo já não aguenta mais
Sr. Presidente, como você se sente
Ao ver a fila dos nossos hospitais?
Sr. Presidente, até queria que a gente
Se entendesse mas não sei como faz
Porque essa noite se foi mais um menino ali na rua de trás.”

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Opiniões, curiosidades, resenhas, listas e sobre todos os tipos de música são o foco desta coluna, comandada por Igor Miranda, jornalista que escreve sobre música desde 2007 e com experiência na área cultural/musical. Contato: [email protected]