Foto: Reprodução/Instagram alceu valença

Alceu Valença relembra ditadura no Brasil: ‘saí para respirar democracia’

Carregado de um sotaque nordestino e arrastado, com a voz doce e brincalhona, Alceu Valença conta toda sua trajetória, principalmente a musical, no ‘Essenciais’, podcast original da Deezer (clique aqui para ouvir a entrevista). Ao longo de quase 40 minutos, 15  músicas são usadas como linha do tempo e fio condutor da conversa informal e descontraída (clique aqui para ouvir a playlist).

Entrevistado pela jornalista Roberta Martinelli, Alceu Valença faz uma viagem sonora: mistura e parte de muitos lugares do nosso Brasil – como Recife, Rio de Janeiro e São Paulo – e voa até o exterior, aterrissando em países como França, Portugal e Estados Unidos. Apesar do vasto conhecimento e cultura acumulados ao longo de seus 73 anos de idade, o artista encanta com sua humildade.

Exemplo de sua erudição são as pitadas de latim e francês entre suas falas – citações de nomes que deixaram uma pequena marca em sua vida. Ele também se gaba por saber imitar qualquer artista que ouvia na época do rádio e reproduz exclusivamente à audiência as vozes de Cauby Peixoto, Nelson Gonçalves, Dalva de Oliveira e Luiz Gonzaga.

Origem

Apesar de ter nascido com paixão e um pézinho hereditário na música, o que realmente fez com que o garoto rodeado de familiares que tocavam viola, violão, bombardino e bandolim virasse cantor foi o deslumbramento pelo palco: aos quatro anos participou pela primeira vez em um concurso musical em São Bento do Una (PE), sua cidade natal, cujo prêmio era uma caixa de sabonete.

“Na minha alma, o que ficou real mesmo foi esse negócio do aboio, toadas, violeiro, sanfoneiro, tá entendendo? Isso é o meu São Bento do Una e a cultura popular do Recife”, diz.

Alceu Valença estudou Direito, mas somente porque seu pai não queria que fosse artista – dois de seus doze irmãos eram músicos e já tinham passado por muito perrengue na vida. Assim que terminou a faculdade, entregou o diploma na mão de seu Décio Valença, pediu o dinheiro que ele havia gastado com a festa e o anel de formatura e foi seguir seu sonho.

Ditadura

De estagiário no Jornal do Brasil a jogador na Seleção Pernambucana Juvenil de basquete, Alceu já era expert em networking antes mesmo da palavra entrar para o vocabulário moderno. Por causa de um colega de um time de basquete adversário, Alceu Valença foi para a França e, lá, por meio de contatos que fez com músicos e jornalistas influentes, sua carreira decolou.

“Eu saí do Brasil também porque era a época da ditadura militar – vi muitas coisas que aconteceu aqui com amigos, tinha muita gente presa… Pô, era uma maneira de, pelo menos, respirar o ar da democracia na França. Mas eu não estava exilado não”, relata. Assim que a abertura do Brasil é retomada, Alceu retorna para tentar respirar o ar da democracia por aqui também.

O artista volta a falar na ditadura ao comentar a música ‘Bobo da Corte’, na qual faz referência a uma pessoa presa e torturada durante o regime militar mesmo não tendo vínculo com o assunto ou grupos procurados na época. É aqui que ele cita a frase em latim, ditada por Cícero, um advogado romano que destruiu a conspiração de Lúcio Sérgio Catilina para derrubar a república.

Já ‘Vou Danado Pra Catente’ o leva de volta a 1975, quando vence o prêmio no Festival de Abertura da TV Globo – apesar de ninguém ter conseguido definir a qual gênero a música pertencia: “não era samba, frevo nem coisa de Beatles”. A categoria do prêmio ‘Incentivo à Pesquisa’, inclusive, foi criada especialmente por causa de Alceu: “As pessoas não entendiam o que eu fazia, era muito complexo, mas elogiavam muito”.

O ícone da MPB conta todas as outras histórias por trás de seus sucessos – dentre elas, ‘Le Belle De Jour’, ‘Recife’, ‘Tropicana’ e ‘O Sertão Precisa É Disso’, que faz parte da trilha sonora do filme que ele mesmo produziu em 2016, ‘A Luneta do Tempo’. Não vamos dar mais nenhum spoiler para você correr e ouvir o próprio Alceu contando suas histórias – mas daremos um conselho que ele mesmo passou: “nem tão maluco, nem tão pragmático”, é assim que a vida deve ser.

Todas as músicas apresentadas no podcast estão em ‘Essenciais Alceu Valença’, uma playlist especial Deezer (clique aqui para ouvir).

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