Brasil todo é “obrigado a escutar e aplaudir” só o sertanejo, diz Emicida

'A indústria (musical) é extremamente restrita', afirma o rapper (Divulgação)

‘A indústria (musical) é extremamente restrita’, afirma o rapper (Divulgação)

O rapper Emicida fez críticas ao domínio do sertanejo no mercado musical. Os comentários do cantor foram feitos em entrevista ao site “G1”.

Durante a entrevista, Emicida promoveu o projeto Língua Franca, formado por ele e Rael, além de dois rappers portugueses: Capicua e Valete. A indústria musical foi tema de parte do bate-papo e Emicida, um dos poucos nomes do rap a levar sua música para o chamado “mainstream”, expôs sua opinião sobre o assunto.

“Há a música enquanto arte e enquanto indústria. A indústria é extremamente restrita, exclui muito da produção cultural do Brasil e faz com que a diversidade de um país como o nosso vá pelo ralo”, afirmou o rapper.

Ainda segundo Emicida, o sertanejo tem dominado espaços que antes eram ocupados por estilos diversos. “Acho contraditório que a gente tenha trilhado um caminho com Jair Rodrigues, Elis, Tom, Pixinguinha, Pena Branca e Xavantinho, Racionais, Caetano, Gil, Tom Zé… e, de repente, chega um momento em que o Brasil inteiro é obrigado a escutar e aplaudir um único gênero”, disse.

Emicida também comentou qual a saída mais indicada para sair dessa situação. “Pressionar o mainstream, para que a diversidade exista dentro do universo das FMs e a arte brasileira seja conhecida pela pluralidade”, afirmou o rapper.

Ouça “Ela”, primeira música do projeto Língua Franca:

Polêmica sobre clipe de Mallu Magalhães

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Durante a entrevista ao G1, Emicida também comentou sobre as críticas feitas, nas redes sociais, ao clipe de “Você não presta”, de Mallu Magalhães. Internautas e ativistas disseram que estereótipos racistas são reproduzidos no clipe, como deixar os bailarinos com roupas mais curtas e corpos com óleo – algo que não acontece com Mallu – e o próprio distanciamento da cantora nas cenas, visto que ela quase não aparece ao lado dos dançarinos.

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Sobre o assunto, Emicida foi direto ao ponto. “As pessoas precisam permitir que os corpos pretos sejam livres. Se a gente tivesse um corpo de baile branco ali, e os bailarinos pretos desempregados, iríamos levantar esse questionamento?”, disse o rapper.

Ele complementa: “Acho que há uma mania, às vezes, de salvar quem não está pedindo socorro. Você se coloca numa posição de dizer: ‘Esses bailarinos são ignorantes, não gostam de ser pretos, são cegos para sua autoestima’. Uma terceira pessoa está dizendo para eles que eles estão sendo usados”.

Para Emicida, existem situações mais complicadas a serem discutidas. “A gente tem problemas mais sérios do que esse. Entendo que isso é o que dá uns ‘likes’ na internet. Mas eu não tenho vontade nenhuma de participar da discussão”, disse o rapper, que também rechaça críticas com relação à apropriação cultural. “Como criador, eu me aproprio de várias culturas. Não quero que ninguém venha me dizer que eu não tenho direito de usar um nome japonês na minha coleção de moda”, concluiu.

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Assista ao clipe de “Você não presta”, de Mallu Magalhães:

Por Igor Miranda (@silvercm)

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Opiniões, curiosidades, resenhas, listas e sobre todos os tipos de música são o foco desta coluna, comandada por Igor Miranda, jornalista que escreve sobre música desde 2007 e com experiência na área cultural/musical. Contato: [email protected]