Foto: Reprodução/YouTube

No refrão, celular e notificação: a música de massa do Brasil ama tecnologia

Amor frustrado doendo no peito. Uma noite safada na cama. Muita bebida para consolar a primeira situação ou para turbinar a segunda. No meio disso, alguma tentativa de emplacar um casório ou ao menos um relacionamento estável. Os temas da música popular no Brasil variam pouco, é verdade, mas uma tendência têm se tornado mais presente: os artistas mais ouvidos do País amam tecnologia. Assim como seus fãs, eles curtem, consomem e vivem o meio digital.

Candidata a hit do Carnaval em 2019, Jenifer, do sertanejo Gabriel Diniz, talvez tenha escancarado a relação do mundo tecnológico com o cancioneiro nacional popular ao citar uma moça que o protagonista conheceu no Tinder. É só um exemplo mais recente: no ranking das 100 músicas mais tocadas nas rádios do País em 2018, feito pela empresa de medições Crowley, 18 mencionam tecnologia — sejam dispositivos, tendências ou linguagem com origem nesse universo –, segundo levantamento feito pela reportagem.

Algumas delas são bem óbvias como TBT de Cleber e Cauan, quase um hino nerd do novo sertanejo. O título faz referência à hashtag #tbt, que, quando usada corretamente nas redes sociais, indica a publicação de fotos antigas às quintas-feiras (tbt é uma abreviação da expressão em inglês “throwback thursday”). Diz o refrão: “Hoje é dia de TBT/tô bebendo todas e lembrando de você/Mas chorando aqui só tem o violão.”

Já é um uso bem habilidoso de um fenômeno digital, mas a música vai além e detalha o sofrimento de muita gente com o celular: a falta de bateria. “Celular descarregado à prova de recaídas/Quero ver ligar com zero de bateria”. Coração pesado e celular descarregado. Puxado.

Outras referências no ranking são mais sutis, mas ainda assim demonstram a relação com dispositivos eletrônicos. “Sempre pegava o busão comigo/a gente dividia o mesmo fone de ouvido”, canta Naiara Azevedo em Buá Buá. É só um detalhe, mas é possível imaginar o fone de ouvido branco ligado em algum smartphone estralando um modão.

A forte presença de elementos tecnológicos na música popular não é nenhuma surpresa. “Isso mostra que a gente tem uma geração que dá importância para relações mediadas pela tecnologia”, diz Adriana Amaral, pesquisadora do CNPq para a área de música e cultura digital e professora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). “O sertanejo, que fala muito das relações sociais e amorosas, mostra que hoje não há separação entre a vida na internet e a vida pessoal.”

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Alô?

Pedra fundamental do sertanejo, Menino da Porteira descrevia um mundo de boiadas, cavalos e porteiras — cenário bucólico e bem diferente do atual. No levantamento do Estado, 12 canções fazem referência ao telefone de forma genérica, sem necessariamente especificar se tratam ou não de smartphones. Nada inédito até aí: o primeiro samba brasileiro, registrado em 1916, chama-se Pelo Telefone. Um dos maiores ícones do sertanejo dos anos 1990, também homenageia as telecomunicações: Pense em Mim, de Leandro e Leonardo.

As outras citações deixam claro que há uma relação intensa com a tecnologia: cinco citam celulares; três, notificações e mensagens. Outras três falam de redes sociais, enquanto apenas uma canção menciona uma marca específica da tecnologia: YouTube, presente na letra de Beijo de Varanda, dos veteranos Bruno e Marrone.

Falar de tecnologia não é uma exclusividade da música sertaneja, gênero que domina o ranking da Crowley com mais de 80% das posições. Na década de 1970, o Kraftwerk já colocava quase uma lupa científica sobre a relação entre homem e máquina. Na década de 1990, o Radiohead serviu como cronista carrancudo da presença tecnológica na vida humana. Até os Titãs, na década de 1980, bateram no poder de influência que emanava da TV — que deixava o cantor Sérgio Britto “burro, muito burro demais”.

Porém, o jeito da música de massa nacional tratar da tecnologia é bem diferente dos exemplos acima. Na maior parte da vezes, ela demonstra quase uma relação íntima com gadgets e serviços.

“O sucesso é uma medida do quanto uma canção se comunicou, e a grande sacada da música pop é se comunicar. Se os jovens de hoje se expressam e criam laços afetivos usando a tecnologia, a canção que se comunicará melhor é a que vai fazem referência a isso. É uma pauta absolutamente central e cotidiana”, diz Thiago Pereira, professor e pesquisador do Laboratório de Pesquisa em Culturas Urbanas e Tecnologias da Comunicação (Labcult), da Universidade Federal Fluminense. “Não me lembro de outro momento que tenha os produtos tecnológicos de forma tão evidente nas letras”, afirma.

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Uma forma de entender essa presença acentuada é o fato de que o consumo sempre esteve ligado à cultura de massa — e com o ganho de importância da tecnologia, isso acaba sendo refletido. “O neo-sertanejo trabalha hábitos de consumo e a tecnologia está inserida nesse guarda-chuvas”, explica Pereira. “O Camaro Amarelo, de Munhoz e Mariano, é um momento marcante do estilo, com objetos de desejo e certa ostentação”, lembra o pesquisador. Assim, fica claro como smartphones que podem custar até R$ 10 mil podem virar protagonistas de canções.

Fábrica de hits

Grande parte das músicas mais populares do País não foram escritas por quem as canta – são obras de compositores especialistas em emplacar hits grudentos, geralmente desconhecidos do grande público. Em 2018, o principal nome do cibersertanejo veio de Quixeramobim (CE), a 212 km de Fortaleza. É na cidade cearense que nasceu Júnior Gomes, 28, autor de três sons com menções a gadgets e redes sociais. Entre elas estão Notificação Preferida, cantada por Zé Neto & Cristiano, e Quem Pegou, Pegou, de Henrique & Juliano.

Dono de um iPhone X, ele diz que gosta de trazer elementos tecnológicos às músicas justamente por ser um assunto popular. “Tento pegar os assuntos na boca do povo e as redes sociais me ajudam muito a gravar”, diz ele.

Para ele, porém, mais importante que falar de tecnologia, é a maneira como ela inspira sua obra. “Quando fiz Quem Pegou, Pegou, vi que as pessoas postavam essa hashtag o tempo todo e pensei: ‘Isso daí dá música’”. A origem de Notificação Preferida é parecida. Ele reparou que o assunto era um tema constante em posts no Instagram e no Facebook.

O compositor explica que atualmente os artistas não pedem músicas com temas específicos nas letras — o foco é maior na encomenda de ritmos. Assim, ele tem liberdade para falar sobre o que quiser, desde que emplaque nos rankings das mais ouvidas. Durante cinco meses em 2018, ele teve três músicas entre as dez mais ouvidas do País.

A falta de pedidos específicos por letras permite os compositores a espalhar músicas de temas parecidos entre artistas diferentes. Isso ajuda explicar a falta de predominância de um único artista com tecnologia. No levantamento do Estado, Wesley Safadão é o único com mais de um som “nerd” – e uma delas, Ar Condicionado no 15, tem apenas referências sutis ao tema.

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Outras plataformas

Hoje em dia, a música que mais agrada as pessoas está longe de ser consumida apenas nas rádios – o YouTube, por exemplo, é o lugar onde muita coisa explode em popularidade. Os rankings de outros serviços repetem muitos dos nomes do cancioneiro tecnológico popular do registrado pela Crowley. Porém, existem algumas diferenças interessantes, como a inclusão de ritmos ligados ao funk.

Uma delas é a presença de MC Loma e as Gêmeas Lacração, que cravaram Envolvimento como hit do carnaval de 2018 . Embora a letra não mencione nada sobre tecnologia, o mesmo não pode ser dito do clipe original, responsável por bombar a música. Nele, MC Loma cita o Uber na parte inicial do vídeo, produzido por Kondzilla, o maior canal do YouTube brasileiro. Envolvimento aparece no ranking dos vídeos musicais mais vistos do YouTube em 2018 e no ranking das mais tocadas do YouTube Music.

Os funkeiros MC Kevinho e MC Kekel, que falam de uma ligação não atendida em O Bebê, aparecem na lista do YouTube Music. Os dois serviços do Google também compartilham a presença de Gusttavo Lima com Mundo de Ilusões.

Já o pequeno ranking tecnológico do Spotify é dominado por Matheus & Kauan. A inclusão de Tô com Moral No Céu! mostra uma outra faceta da música popular tecnológica tupiniquim: o uso de uma palavra com origem no mundo dos computadores: “Eu quase desisti/ Mas o amor gritou, gritou até ela me ouvir/ Quando o primeiro beijo dela resetou meu coração, meu coração/ Eu já tinha beijado ela mil vezes na imaginação”.

Além disso, com Ao Vivo e a Cores, a dupla é a única a aparecer nos quatro rankings analisados pela reportagem. Seja na farra ou no amor, a música popular do Brasil também é digital. E não tem como fugir disso. É como diz Júnior Gomes: “Sem as tais tecnologias não tem como viver, não.”