(Foto: divulgação)

Sucesso na internet e fora dela, carreira da dupla Anavitória chega aos cinemas

Do lado de fora de um dos flats de um prédio nos Jardins, em São Paulo, tomado inteiro por jornalistas, produtores e assessores, um repórter questiona a equipe da dupla Anavitória, formada por Ana Caetano e Vitória Falcão. “Como elas não falam sobre a vida pessoal delas se o filme é todo sobre isso?”. Sua pergunta é recebida com mais uma negativa por parte da equipe das moças de Araguaína, no Tocantins, estrelas do filme ‘Ana e Vitória’, que estreia nesta quinta-feira (2), dirigido por Matheus Souza (de ‘Apenas o Fim’, 2008, ‘Eu Não Faço a Menor Ideia do que Tô Fazendo Com a Minha Vida’, 2012, e ‘Tamo Junto’, 2016).

Embora o colega tenha deixado a conversa com os assessores com a expressão emburrada, ‘Ana e Vitória’, o filme, é sobre Ana e Vitória, as artistas que, aos 23 anos, sendo três de carreira, já têm um Grammy Latino na estante, tocam em rádios, rodam o País e fizeram recentemente uma turnê com Nando Reis. Mas também é sobre Ana e Vitória, personagens da ficção.

O centro gravitacional do longa é a história desse fenômeno musical das meninas, que até 2015 sequer entendiam até onde poderiam chegar quando passaram a gravar covers e publicá-los no YouTube, mas, a partir disso, Souza, também roteirista, teve a liberdade de criar uma história própria sobre entrega ao amor e insegurança, amparado por canções inéditas do duo.

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O alerta prévio à entrevista, sobre “evitar perguntar sobre a vida pessoal”, mostra o ponto atingido pela carreira de Ana e Vitória. Tão populares, elas tiveram suas vidas privadas esmiuçadas por paparazzi e sites de celebridades. Com quem saem, com quem andam, o que fazem, está tudo lá. Fechar-se contra isso é um movimento natural.

Com alguns minutos de atraso, entram no quarto no qual dariam as entrevistas sobre Ana e Vitória, filme cuja existência comprova o fenômeno de popularidade. Era uma sala abafada, de paredes brancas, câmeras e microfones, três poltronas (para a reportagem e para as artistas). Tudo quadrado, hermético e impessoal demais. Com o aviso de que o papo não seria registrado em vídeo, elas se soltam. Vitória senta-se com pernas de índio, encaixada no assento, Ana sorri. Aos poucos, relaxam.

Lançarem-se como atrizes, diretamente na tela grande, talvez seja o maior passo desde que decidiram enviar ao empresário de Tiago Iorc, outro fenômeno de popularidade e figurinha constante nas trilhas sonoras das novelas da Globo, um vídeo no qual interpretavam uma música do artista brasiliense, chamada ‘Um Dia Após o Outro’, gravada no alto do Morro do Além, nas proximidades da cidade onde nasceram e cresceram.

Felipe Simas, o empresário, curtiu o som das meninas. Logo, estavam no estúdio para gravar seu primeiro EP. O disco de estreia, do ano seguinte, foi realizado com o auxílio de crowdfunding e teve produção do próprio Tiago Iorc. Do álbum, a música ‘Trevo (Tu)’ levou o Grammy Latino de melhor canção em língua portuguesa.

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Até 2015, elas eram estudantes de direito (Vitória) e medicina (Ana) com gosto pelo canto. Aproximaram-se na vida adulta e, atualmente, uma responde pela outra e completam as frases e pensamentos entre si. Ana, por exemplo, conta como o pai de Vitória sempre foi musical, enquanto Vitória sorri ao lembrar da avó da amiga, que “canta a segunda voz de um jeito muito fofo”. Parecem irmãs de sangue. “Você é a minha pessoa”, declarou-se Ana no Instagram, ao celebrar o 23.º aniversário da companheira, em maio, em referência a uma expressão usada na série ‘Grey’s Anatomy’. Moram juntas em São Paulo há três anos e têm planos de serem vizinhas na próxima morada, na Serra da Cantareira.

A ideia do filme foi sugerida pelo próprio Simas, que também assina a produção. Elas, que cantam o amor, suas desilusões, inseguranças e novas paixões em Anavitória, o disco de estreia, agora interpretam esses mesmos sentimentos diante da câmera. Como se sentiram como atrizes? “Menino!”, respondem, em uníssono – se fosse ensaiado, daria errado. “É muito louco”, toma a palavra Vitória. “É ser atriz e você mesma.” “A gente não tinha experiência alguma, a Vi já havia feito teatro na escola, mas não tinha trabalhado com isso.” Matheus Souza, “um obcecado por diálogos”, como ele mesmo diz, tem mérito em trabalhar com as duas, semanas antes do início de filmagens, para alinhar o roteiro à forma de atuação mais fluida por parte das garotas.

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Matheus entrevistou as moças por dois dias e criou uma história tão fantasiosa quanto o próprio conto de fadas vivido por Anavitória. Elas, aliás, só entenderam o que estava acontecendo – o sucesso na internet – quando passaram a ter contato com fãs e pessoas reais, como mostrado na tela grande. Tiveram medo, é claro, mas seguiram em frente. “Toda a nossa vida é assim, também, com entrega e insegurança”, diz Vitória. E a frase dela funciona quando o assunto é a carreira, sobre novos amores, sobre o primeiro ou o segundo disco. E, é claro, sobre o a jornada contada no novo filme. Talvez o colega jornalista não estivesse errado de todo, mas também estava completamente certo – a linha é tênue.

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