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De Roberto Carlos a Wilson Simonal: os artistas que teriam ajudado a ditadura

Quando se relaciona música e ditadura, é comum falar sobre como as composições foram censuradas ou viraram hino de protesto em meio à repressão militar da época. Porém, há outro lado dessa história: os artistas que teriam colaborado com o regime autoritário. Entre eles, estariam nomes como Roberto Carlos, Wilson Simonal e Agnaldo Timóteo.

Os três chegaram a serem mencionados como “aliados da ditadura” em um documento oficial do Centro de Informações do Exército (CIE), divulgado pelo Acervo Arquivo Nacional.

O documento, que pode ser lido nos dois endereços a seguir (link 1 | link 2), diz que alguns veículos de imprensa supostamente publicavam reportagens que maculava a personalidade de artistas que se “uniram à revolução de 1964 no combate à subversão e outros que estiveram sempre dispostos a uma efetiva colaboração com o governo”. Informa-se, implicitamente, que esses nomes devem ser protegidos pelos militares.

Roberto Carlos e as honrarias dos militares

Dono dos especiais de Natal na TV Globo desde 1974, Roberto Carlos era tão bem relacionado com as autoridades do governo na época que, em 1979, chegou a conseguir concessão pública para uma emissora de rádio. Na época, o presidente era o general Ernesto Geisel – o quarto mandatário desde o início do período militar no Brasil.

Em entrevista à ‘revista Época’, o então secretário-geral do Ministério das Comunicações, Rômulo Furtado, relembrou o momento que viu o cantor chegando no seu local de trabalho.

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“Ouvi gritos no corredor e, de repente, entrou o Roberto Carlos em meu gabinete. Tomei um susto”, narrou. “Ele tinha vindo fazer uma visita de cortesia. Isso não era necessário, porque as concessões eram dadas pessoalmente pelo ministro ou pelo presidente. Eu cuidava apenas da documentação burocrática”, acrescentou.

Documentos apontam que a relação positiva de Roberto Carlos com a ditadura não parou por aí. Ele foi condecorado com a Medalha do Pacificador, teve cargos em conselhos do governo, conseguiu driblar a censura e fez shows nas Olimpíadas do Exército.

Além da postura durante a ditadura brasileira, um vídeo – que vez ou outra volta a circular entre os internautas – registrou o cantor demostrando admiração pelo ditador chileno Augusto Pinochet. Veja:

Wilson Simonal, o ‘delator’

Outro citado como “aliado” da ditadura, Wilson Simonal conviveu até o fim da vida com a fama de dedo-duro por ter, ao que tudo indica, denunciado o contador pessoal a agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), com os quais ele teria certo nível de amizade.

Simonal teria se utilizado desse relacionamento para “dar uma lição” em um antigo funcionário de sua gravadora, mas a coisa acabou saindo do controle.

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Após ser demitido da Simonal Produções, o contador Raphael Viviani entrou com processo trabalhista contra o ex-patrão. Indignado, o cantor tentou acusar o ex-funcionário de roubo e teria pedido para que agentes do DOPS o fizessem confessar o crime.

Em um documento assinado por ele, o cantor chega a se declarar como um “antigo colaborador do DOPS” e “divulgador do programa democrático do governo da República”.

Simonal teria, ainda, entregado outros artistas para o DOPS. Ele se tornou uma figura mal vista pela sociedade e nunca mais emplacou nenhum sucesso.

O caso foi abordado na cinebiografia do músico, intitulada apenas ‘Simonal’ e lançada em agosto de 2019. Em entrevista ao jornal ‘O Globo’, o diretor do filme, Leonardo Domingues, disse considerar que o envolvimento com a ditadura, que arruinou a carreira do cantor, “foi o primeiro grande caso de fake news no Brasil”.

“O que fizeram com ele naquela época, quantas pessoas podem estar sofrendo hoje em dia, ao serem julgadas e condenadas nas mídias sociais?”, refletiu Domingues.

Veja o trailer de ‘Simonal’:

Agnaldo Timóteo e a defesa da ditadura

Mais um que é citado no documento do CIE, Agnaldo Timóteo foi o que pisou mais fundo em solo político. O cantor chegou a ser eleito vereador por São Paulo e deputado federal pelo Rio de Janeiro.

Embora seja citado no documento, o caso de Agnaldo Timóteo parece diferente das situações de Roberto Carlos e Wilson Simonal, já que não há mais detalhes sobre como o cantor teria colaborado – direta ou indiretamente – com o sistema autoritário da época.

Porém, ele ainda tem posicionamentos considerados polêmicos sobre a ditadura – e vez ou outra vira notícia por conta disso. Em 2012, por exemplo, o cantor exaltou a ditadura durante discurso na Câmara Municipal de São Paulo.

“É uma lástima que os meios de comunicação não se disponham a contar as coisas maravilhosas que foram realizadas neste país pelo regime militar”, disse.

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“Meia dúzia de brasileiros zé-manés queriam depor o regime militar na porrada. Se sou general, vou deixar os caras me deporem na porrada? Não, mando meter a porrada neles. Que negócio é esse? Governo é governo”, acrescentou.

Em outra ocasião no mesmo ano, Timóteo defendeu, em outra sessão da Câmara Municipal, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que é reconhecido pela Justiça de São Paulo como torturador da ditadura. Depois, afirmou à ‘Folha de S. Paulo‘: “Deveríamos colocar a bunda para a lua e agradecer a eles”.