Foto: Fernando Vivas/Agência A Tarde/AE

Processos, dívidas e brigas familiares: os melancólicos últimos anos de João Gilberto

João Gilberto, um dos músicos mais importantes do Brasil e creditado como o pai da bossa nova, morreu no dia 6 de julho de 2019. O baiano de Juazeiro, que morou em Aracaju, Salvador e outras cidades na juventude, nos deixou aos 88 anos, falecendo em sua casa, no Rio de Janeiro.

A causa da morte de João Gilberto não foi divulgada, mas imagina-se que tenha a ver tanto com a idade avançada quanto com os problemas de saúde que ele enfrentava. Em função disso, o artista manteve-se recluso, sem shows ou mesmo aparições públicas, em sua última década de vida.

Em seus mais de 50 anos de carreira, João Gilberto foi um revolucionário. Criou uma forma de batida no violão para tocar samba que se transformou na bossa nova – talvez, o estilo musical brasileiro mais famoso no mundo. A forma de fazer percussão enquanto dedilha as cordas do violão e o jeito suave de cantar fizeram história em músicas como ‘Garota de Ipanema’, ‘Chega de Saudade’, ‘Desafinado’ e ‘Corcovado’, só para citar algumas.

Em 2008, o cantor fez seus últimos shows, em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, para celebrar os 50 anos da criação da bossa nova. Agradou bastante o público, mas ele já estava em idade avançada, com 77 anos. Não queria, nem poderia continuar se apresentando.

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E assim o fez. Após uma turnê cancelada em 2011 por problemas de saúde, ele embarcou em uma reclusa aposentadoria que tinha tudo para ser tranquila, mas acabou marcada por conflitos familiares, empresariais e até financeiros, com dívidas que chegaram a R$ 9 milhões.

Finanças e família de João Gilberto

João Gilberto e Bebel Gilberto (Foto: reprodução / Facebook)

As dívidas de João Gilberto começaram, justamente, devido à turnê que acabou cancelada. Em 2013, buscando amenizar os problemas financeiros causados por esses shows que não foram realizados, o banco Opportunity comprou 60% dos direitos sobre os quatro primeiros discos do cantor, considerados alguns dos mais importantes da música brasileira, em troca de um empréstimo financeiro.

Na época, um dos filhos do cantor, João Marcelo, acusou Claudia Faissol, mãe da filha mais nova do artista, de receber por fora algo entre 5% e 10% desse montante. João Marcelo e outra filha do artista, Bebel Gilberto, travaram guerra judicial contra Claudia.

João Gilberto com Claudia Faissol e a filha mais nova (Foto: reprodução / Facebook)

Na Justiça, Bebel pediu em 2017 a interdição do pai para que ele não fosse induzido a assinar documentos com força legal sem saber o que estava fazendo. Ela conseguiu interditá-lo judicialmente, passando a cuidar tanto dele quanto da situação financeira dele. Bebel afirmou que seu pai estaria atravessando “absoluta penúria financeira”. No ano seguinte, ele chegou a ser obrigado a deixar seu apartamento no Rio de Janeiro em função das dívidas.

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João Marcelo afirmou, em 2018, que o pai não tinha mais controle de suas finanças. “Ele me pedia há um tempo para descobrir como estão suas finanças, me perguntava com frequência sobre os cheques que sumiam em sua casa. Isso porque se sentia insatisfeito e sem o controle da situação, como sempre gostou de ter. Uma vez, me pediu para telefonar para a Claudia Faissol para eu poder entender algumas coisas sobre contratos e finanças”, afirmou, em entrevista ao ‘Estadão’.

A companheira de Claudia, por sua vez, defende que o cantor nunca teve empresário e suas gravações não eram registradas. “Estou tentando organizar. Fui a estatais e ministérios no governo passado e não consegui ajuda. Ele não queria lei de incentivos para tirar impostos do povo. Houve falta de vontade política”, disse.

João Gilberto e Bebel Gilberto (Foto: reprodução / Instagram)

Disputa com gravadora

Nos últimos anos de vida, João foi representado por advogados do banco Opportunity que moveram uma ação contra a Universal Music. Eles acusavam a gravadora, que assumiu o controle da EMI, de não tê-lo pago, desde 1964, os direitos autorais das vendas de seus álbuns.

A ação existia desde 1997 e era movida contra a EMI, sua gravadora concreta. Com o passar dos anos, a empresa, que lançou os três primeiros álbuns do artista entre 1959 e 1961, foi incorporada à Universal.

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Em 2012, a EMI foi condenada por não cumprir com a dívida, começando a pagar em 2013. Estimava-se que o valor chegava a R$ 173 milhões.

Meses antes do cantor falecer, em março de 2019, a Justiça determinou que a Universal deveria arcar com a dívida deixada pela EMI. Coube recurso e, até hoje, ao que tudo indica, a situação tramita pelos tribunais.

Igor Miranda é jornalista que escreve sobre música desde 2007 e com experiência na área cultural/musical.

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