Foto: reprodução / TV Globo

Belchior: o desaparecimento uma década antes de sua morte

Nascido em Sobral (Ceará), Antonio Carlos Belchior, ou simplesmente Belchior, compôs para grandes nomes como Elis Regina, se consolidou com ‘Alucinação’ (1976) e lançou vários sucessos até ter uma espécie de sumiço em 2007, 10 anos antes de morrer.

O cantor que se tornou o representante do nordeste na Música Popular Brasileira (MPB) foi do sucesso que chamou atenção de Bob Dylan ao sumiço que intrigou o Brasil.

Procura-se Belchior

Quando começou a se isolar, Belchior estava focado nos desenhos que tinha começado a fazer anos antes. Ele dizia sentir que suas composições já eram capazes de “andar por conta própria”.

“Um dia eu vou morrer e minhas músicas vão continuar por aqui. Terei deixado as minhas gravações, e uma boa parte delas foi gravada de modo brilhante por outras pessoas”, afirmou ao jornal ‘Folha de S.Paulo’ .

Em relação aos desenhos e ao ateliê para os quais se dedicava, Belchior dizia que precisava se empenhar mais. “Esses desenhos ainda precisam muito da minha dedicação”, declarou ao mesmo jornal.

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Foi nessa época, em 2007, que o autor da música ‘Como Nossos Pais’, conhecida na voz de Elis Regina, começou a sumir aos poucos. O celular não tinha sinal, as pensões que ele pagava começaram a ter registro de atrasos, o ateliê fora abandonado, nenhum show mais era marcado e nem os familiares conseguiam contato.

Belchior havia fugido – se é que assim se poderia classificar seu sumiço – com a esposa, a Edna Assunção de Araújo, chamada Edna Prometheu. Ele havia deixado para trás todas as coisas que classificavam sua carreira.

“Acho que ele fugia do barulho, da imprensa, do sistema de obrigações que rodeia um músico da sua
dimensão e da fama que o acompanha”, concluiu Tonio Pereira, diretor de um canal de televisão no Uruguai, que conseguiu fazer com que o cantor concedesse uma entrevista na época.

Belchior encontrado

Foto: Divulgação

Em 2009, uma reportagem do ‘Fantástico’ abordou o desaparecimento de Belchior, que já não era visto por parte dos familiares há dois anos.

Foi nesse programa que o cantor deu sua última entrevista. Ele prometeu um novo projeto musical e afirmou que estava compondo e traduzindo as músicas para o espanhol, mas nada disso, de fato, aconteceu.

“Assim que terminar esse trabalho aqui, com certeza eu vou de volta para a minha cidade amada, para os lugares mais queridos do Brasil. Vou fazer show, vou soltar um disco com canções novas, e eu tenho certeza que vai ser simplesmente a continuidade do amor que o povo do Brasil sabe que eu tenho por ele”, declarou.

“Eu me sinto imensamente feliz por me ver tão amado e requisitado. Tenho certeza que esse é um momento super bem-sucedido. O Brasil está comigo sempre, sempre estou voltando para o Brasil”, acrescentou.

Em reação, vários relatos sobre o encontro com o cantor começaram a aparecer. Grande parte deles afirmava: o cantor estava no Uruguai.

“Foi estranho, tenho até receio de dizer. Tinha algo no ar que não saberia explicar”, relatou o advogado Bruno Menezes, de Santa Maria (RS), que afirmou ter visto Belchior em Colônia do Sacramento, no Uruguai. Apesar disso, ele considerou que o cantor estava feliz.

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No livro ‘Belchior – Apenas um rapaz latino-americano’, o jornalista e crítico musical Jotabê Medeiros narra que, naquele ano, Belchior só fez questão de ligar para a filha Camila. O número não era conhecido dela, mas a voz, sim – e ela se emocionou ao ouvir o pai, que fazia contato para parabenizá-la pelo aniversário.

“Está tudo bem, filha. Daqui a pouco a gente se vê. Já, já a gente se vê”, teria dito o cantor, que nunca mais fez contato com Camila.

Ao todo, Belchior passou quase dez anos vivendo em reclusão, sem aparecer ao público ou fazer apresentações ou ter endereço conhecido.

Veja a reportagem do ‘Fantástico’:

Morre Belchior

Em 30 de abril de 2017, Edna encontrou Belchior enrolado numa manta no sofá onde tinha passado a noite ouvindo música clássica. O cantor havia morrido devido a um aneurisma da aorta, a principal artéria do corpo humano

Belchior faleceu aos 70 anos. Ele estava em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, e teve o corpo levado para sua cidade natal no Ceará, onde foi velado.

Conforme era seu desejo, o cantor foi enterrado em Fortaleza após o velório na cidade de nascimento. Na época, o governo do Estado do Ceará decretou luto oficial de 3 dias.

“Recebi com profundo pesar a notícia da morte do cantor e compositor cearense Belchior” disse em nota o governador Camilo Santana. “O povo cearense enaltece sua história, agradece imensamente por tudo que fez e pelo legado que deixa para a arte do nosso Ceará e do Brasil”.

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