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Participantes do ‘The Voice Kids’ desabafam sobre saúde mental após eliminações

No ar desde 2016, o programa ‘The Voice Kids’ é uma das atrações de maior sucesso da TV Globo aos domingos. Crianças de todo o Brasil, com idades entre 9 e 14 anos, disputam a preferência do público e dos técnicos – o vencedor de cada temporada recebe um prêmio de R$ 250 mil.

Apesar da fama e da experiência única que o ‘The Voice Kids’ oferece a essas crianças, existe o outro lado da moeda que nem todos consideram. Muitos jovens que participam do programa não estão preparados para a rejeição que, inevitavelmente, ocorre ao longo das temporadas.

Bel Sant’Anna, que participou da edição 2019 do ‘The Voice Kids’, viralizou no Twitter ao desabafar sobre o assunto. Outros cantores mirins que estiveram em diferentes edições do programa concordaram com o relato da adolescente, hoje com 15 anos de idade.

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“Eu sei que ninguém liga e vocês podem até achar que eu to cuspindo no prato em que eu comi, mas, na minha opinião, ‘The Voice Kids’ deveria ser proibido. Não só porque as crianças estão sendo usadas para entretenimento alheio, mas eu já senti na pele como é estar lá e não me fez bem”, disse Bel, inicialmente, em uma publicação que obteve mais de 35 mil curtidas e 3,5 mil compartilhamentos no Twitter.

A postagem viralizou sem que a jovem esperasse e ela acabou explicando, em outras mensagens, a sua experiência no reality musical. A adolescente deixou claro que a Globo e os jurados não têm culpa. O problema, segundo ela, está na “mecânica” do programa. O formato ‘The Voice’ é de origem holandesa, mas foi disseminado em outros países, como Portugal e França, até chegar ao Brasil.

“Quando se colocam crianças para competirem entre si em prol do entretenimento alheio, já passa a ser algo duvidoso. Tenho que dizer que na época que eu fui (13 anos), a perspectiva de fazer parte disso era fantástica. […] A experiência em si foi boa considerando as amizades que eu fiz, mas eu não tinha preparo psicológico e muito menos emocional para enfrentar um baque daqueles. Podem dizer que eu só ‘não sei perder’ porque foi isso que eu achei por muito tempo”, disse.

Bel Sant’Anna entrou para o ‘The Voice Kids’ no time de Simone e Simaria, passando das audições às cegas. Entretanto, foi eliminada na primeira etapa de batalhas. Ela e Camila Woloszyn, outra participante, foram derrotadas pela dupla Helen e Heloisa, que seguiu na competição.

“Fui desqualificada nas batalhas e eu perdi toda a minha autoestima. Tudo o que fazia eu querer cantar. Toda a mágica que a música tinha pra mim foi embora porque eu pensava que não era boa o suficiente pra continuar. Alguém lá dentro me designou ruim demais para seguir no show. Passei um ano inteiro parada ser tocar no meu piano, sem aquecer a voz, sem cantar no chuveiro”, afirmou.

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A jovem destacou que não obteve o devido auxílio dentro de casa. “A situação aqui em casa não ajudava pois meus pais queriam me forçar a voltar a cantar. até hoje tenho muita insegurança relação à tudo o que eu faço com música por causa disso e ainda trabalho com a terapeuta”, disse.

Ainda durante o desabafo, Bel Sant’Anna comentou que a produção do ‘The Voice Kids’ disponibiliza psicólogas nos bastidores do programa, porém, elas não colaboram tanto com a saúde mental dos participantes.

“Não me levem a mal, psicólogas que ficavam lá para nós, mas vocês estavam mais para babás do que para psicólogas realmente. Não falaram nada tranquilizante, só respostas padrões que vocês provavelmente usaram com as crianças antes da gente”, declarou.

Por fim, a adolescente comentou que, na visão dela, “colocar crianças para competirem entre si soa imoral”. “Vocês não têm noção do quanto partia o meu coração ver as crianças voltando do estúdio pro hotel, chorando porque não haviam passado. […] Não estou desdenhando da oportunidade. Só estou apontando alguns fatos, mas sou muito grata pela abertura de portas que o programa me proporcionou, mesmo eu não tendo energia para atravessá-las e agarrar as oportunidades”, concluiu.

Outros jovens participantes falam do The Voice Kids

Foto: Isabella Pinheiro / Gshow

Após a publicação de Bel Sant’Anna viralizar, outros participantes do ‘The Voice Kids’ publicaram relatos sobre o programa. Os cantores mirins concordaram com o que a adolescente publicou e destacaram que o formato do programa prejudica a saúde mental dos competidores, que são apenas crianças.

Enzo, da dupla Enzo e Eder, comentou que esteve na edição 2016 e foi direto em seu relato: “Posso garantir que o que ganhei com os shows depois do programa não pagou o que tive que pagar na psicóloga kkk”.

Pérola Crepaldi, finalista do ‘The Voice Kids’ de 2016, também se manifestou: “Oi Bel, eu sou a Pérola Crepaldi que participou em 2016 na mesma temporada do Enzo e o Eder. Realmente, o que o Enzo falou foi verdade. O ‘The Voice Kids’ foi algo inesquecível, de fato. Uma experiência fantástica, mas no quesito de saúde mental foi muito desgastante”.

Em outra mensagem, respondendo a um internauta, Pérola completou: “Muito triste mesmo, por mais que o programa seja a causa de muitas portas, chorava muito justamente pela pressão que todos nós enfrentávamos”.

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Daniel Arthur, que esteve na temporada 2018, complementou: “Confirmo o que ela disse, eu e outros vários Kids”.

Júlia Paz, que esteve na disputa no ano de 2017, afirmou: “Participei em 2017 e te entendo totalmente, pra mim também foi bem complicado, minha autoestima foi pro saco depois que ‘perdi’, no caso desclassificada na fase ao vivo. Falaram muito mal de mim, inclusive: ‘não ganhou porque não canta bem’. Fui criticada horrores, por muita gente”.

Ela ainda declarou que “tudo que se passa dentro desse programa é uma farsa”. “A partir do momento que a cadeira vira para os participantes, a produção já escolhe o vencedor. Isso acaba com a visão de todas as crianças. A Globo é gigante! São muitos programas de entretenimento e outras coisas. […] O processo seletivo é um nervosismo danado, vi muita criança chorando, indo embora com a cabeça lá no chão. Eu passei, fomos para o Rio escolher a música da virada das cadeiras… não podemos nem escolher o que queremos cantar”, disse.

A escolha das músicas e até mesmo a roupa usada nas filmagens é da produção do ‘The Voice Kids’, de acordo com Júlia Paz. “Levamos 20 músicas e o produtor que escolhe. Meu sonho era cantar uma música internacional, eles escolheram uma MPB, por conta disso, o estilo da criança já é mudado. Durante todo o programa, você é vista com esse estilo musical. Até o figurino é escolhido por eles, você apenas vai pra lá e canta e espera eles escolherem o que ja está escolhido”, afirmou.

Por fim, a adolescente reforçou que o vencedor do ‘The Voice Kids’, ao menos na temporada 2017, já havia sido escolhido. “É óbvio de observar, tanto nas batalhas quanto nas fases ao vivo. A Globo quer Ibope, dinheiro, fofura ganha muito nesse programa. Na maioria das fases ao vivo, os ‘melhores’ (minha opinião) em canto, sempre vão embora. Os que ficam, na maioria das vezes são os que mais chamam atenção, como fofura, votação, voz também óbvio, e até o jeito de se expressar, cultura e tals. Não é difícil de perceber isso. Presenciei uma cena que não posso contar senão sou processada, mas em 2017, o vencedor já tinha sido escolhido”, disse.

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Brenda Gonçalves, participante da edição 2020 eliminada nas batalhas, ofereceu um contraponto ao opinar sobre o assunto. “Participei do ‘The Voice Kids 2020 e foi uma experiência incrível e inesquecível! Eu era apaixonada nos meus amigos, nesse jurado maravilhoso (Carlinhos Brown). Sobre psicólogas, foram um amor, fizeram massagem em mim antes e tudo! Pra mim foi tudo perfeito”, afirmou.

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Arthur Staphanato, que esteve no elenco da edição 2018, disse que superou a tristeza com as amizades feitas dentro do programa e as oportunidades que apareceram. “Fiquei mal na época, também queria desistir, duvidei da minha capacidade, até hoje de vez em quando eu me questiono se isso é pra mim, mas as amizades que eu fiz e todas as portas que se abriram por conta do programa superaram a frustração”, declarou.

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Larissa Carvalho, participante do ‘The Voice Kids’ de 2016, colocou-se à disposição para conversar com Bel Sant’Anna sobre o assunto. “Participei do ‘The Voice Kids’ em 2016 e, apesar de eu não me sentir confortável pra falar algo em público, se quiser conversar sobre, pode me chamar na dm ou algo do tipo! Meu nome é Larissa Carvalho”, comentou.

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Giovanna Khair, da edição 2018, declarou: “A coisa que a gente mais via no programa era a galera saindo de lá MUITO mal psicologicamente. E os comentários são absurdos, era horrível ver como tinha gente que queria falar mal e destruir o psicológico das crianças, tendo 9 ou 15 anos”.

Igor Miranda é jornalista que escreve sobre música desde 2007 e com experiência na área cultural/musical.