Foto: Reprodução/Globoplay

Romance rápido, parceria longa: a história da relação de Cazuza e Ney Matogrosso

Dois dos maiores cantores do rock brasileiro tiveram uma relação estreita: Cazuza e Ney Matogrosso. Na parte afetiva, os dois tiveram um rápido romance. Porém, no campo profissional e da amizade, eles foram parceiros por muito tempo – até a morte de Cazuza, que os deixou em 7 de julho de 1990, aos 32 anos.

O relacionamento entre os dois teve início em 1979, já de forma afetiva. E é interessante perceber como os dois estavam em momentos diferentes da vida quando começaram o romance.

Ney de Souza Pereira, o Ney Matogrosso, com quase 40 anos (ele nasceu em 1941), já era um gigante da música nacional – ele havia se destacado com o grupo Secos & Molhados no início daquela década e estava seguindo em uma bem-sucedida carreira solo.

Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, por sua vez, estava chegando à maioridade (veio ao mundo em 1958) e ainda levaria algum tempo para ficar famoso como o vocalista do Barão Vermelho. Ele era filho de João Araújo, um famoso executivo e produtor musical, mas ainda não tinha iniciado sua carreira artística.

Veja também:
A morte de Tim Maia, que passou mal ao subir no palco para show na TV

Eram quase 17 anos de diferença. Ney tinha quase o dobro da idade de Cazuza naquele momento.

O que esses dois tinham em comum? O amor pela música e pela transgressão.

Cazuza e Ney Matogrosso: o início

Foto: reprodução / YouTube

Em entrevista à revista ’29Horas’, Ney Matogrosso contou como essa história de amor teve início. “Começou com um beijo. Ele foi na minha casa com uma amiga e a certa altura a gente foi fumar um baseado, tomamos um Mandrix, e lá pelas tantas ele me perguntou se eu daria um beijo nele. E dei”, afirmou.

O artista destacou que a conexão entre os dois se estabeleceu de imediato naquele beijo. “Não significava nada dar um beijo naquela época. Só que quando a gente deu esse beijo o mundo se apagou ao redor, ficamos nós dois dentro daquilo. E não nos largamos mais”, afirmou.

Na ocasião, Ney revelou que Cazuza não tinha nada a ver com a imagem de rockstar que construíra anos depois. “Era a pessoa mais encantadora, perturbadora e apaixonante que eu conheci naquela época”, declarou.

O conturbado fim de ‘Neyzuza’

Foto: reprodução / Facebook

A relação afetiva entre Cazuza e Ney Matogrsso não durou por muito tempo e nem dá para classificar como namoro, por ter sido tão breve.

Ney Matogrosso contou, também à ‘29Horas’, que o romance acabou depois que Cazuza apareceu na casa dele “imundo, com um traficante”.

“Durou pouco, mas foi muito intenso. Ele estava muito envolvido com cocaína e um dia apareceu imundo e com um traficante na minha casa. […] Ele começou a me xingar e dizer que eu estava muito careta. Me deu uma cuspida, devolvi uma bofetada na cara dele e o botei para fora de casa”, afirmou.

Apesar disso, eles nunca deixaram de ser amigos. “Uma semana depois, a gente estava de mãos dadas. A gente nunca se separou. […] Não éramos mais nada, mas tinha amor. Acho que teve amor na história até o fim da vida dele”, contou.

Por outro lado, a reação inicial de Cazuza ao fim do affair resumiu-se em ciúmes. “Depois de um tempo, comecei a namorar outra pessoa e o Cazuza ficou enciumado, disse que ia transar com meu namorado. Dei o aval: não tinha problema mesmo. Um dia ele veio todo serelepe e me disse: ‘transei com o Marquinhos’”, revelou.

Em outra entrevista, ao programa ‘Conversa com Bial’, da TV Globo, Matogrosso destacou que o relacionamento com Marco de Maria, o Marquinhos, durou por 13 anos. Cazuza teve ciúmes no início, mas tudo foi superado.

“Depois do Cazuza, eu admiti que poderia me apaixonar por alguém e viver com aquela pessoa. Depois dele, tive um relacionamento de 13 anos. E ele morreu de ciúme. Ele queria me fazer pirraça depois”, afirmou, destacando que o futuro vocalista do Barão Vermelho foi o amor – “um dos amores” – de sua vida.

Amizade e parceria profissional

Foto: reprodução / Facebook

Não poderia ser diferente: a continuidade da amizade entre Cazuza e Ney Matogrosso resultou, é claro, em música.

Em 1981, era fundado o Barão Vermelho, banda que reuniu Cazuza, Roberto Frejat (guitarra), Dé (baixo), Guto Goffi (bateria) e Maurício Barros (teclados). Apesar do vocalista ser filho de um grande executivo da música, o grupo demorou a decolar.

O grande incentivo para estourar veio justamente de Ney Matogrosso. Em 1983, o cantor lançou o álbum ‘…Pois É’, que traz uma regravação da música ‘Pro Dia Nascer Feliz’, composição de Cazuza e Frejat que estava presente no segundo disco da banda, ‘Barão Vermelho 2’.

Com o sucesso da versão de Ney, as rádios começaram a tocar a gravação original, do Barão. A música decolou e, enfim, a banda começou a despontar em fama. Tornou-se o primeiro hit do grupo e marcou a apresentação deles no primeiro Rock in Rio, em 1985.

A dobradinha ‘Neyzuza’ no campo musical se repetiu em outras ocasiões. Ao longo da década de 1980, Ney Matogrosso regravou composições de Cazuza como ‘Por Que a Gente é Assim’ (presente no álbum ‘Destino de Aventureiro’ de 1984); ‘Fratura Não Exposta (no álbum ‘Bugre’ de 1986) e ‘Tudo é Amor’ (no álbum ‘Quem Não Vive Tem Medo da Morte’ de 1988).

Ney também foi diretor de repertório e iluminação do show ‘Ideologia’, de Cazuza, que promovia o álbum de mesmo título, lançado em 1988. O retrato dessa turnê está no disco ao vivo ‘O Tempo Não Para’, liberado em 1989.

Há, ainda, uma gravação póstuma em que os dois cantam juntos. O título? ‘Dia dos Namorados’. Ouça:

Com a partida de Cazuza, Ney passou a homenagear o amigo sempre que possível. Em 1999, a gravadora Som Livre promoveu o show ‘Tributo a Cazuza’, que foi lançado em CD e DVD posteriormente. Na ocasião, o veterano cantou ‘O Tempo Não Para’. Outras canções foram interpretadas por nomes como Engenheiros do Hawaii, Kid Abelha, Zélia Duncan e Leoni, entre outros.

Nas entrevistas, Ney sempre se lembra do amigo com carinho. Ao ‘Conversa com Bial’, ele declarou: “Fiquei junto com ele até o fim da vida dele, eu ia lá para massagear os pés dele. E acho que a esses sentimentos a morte não dá fim”.

Veja também:
A morte de Michael Jackson, causada por combinação letal de medicamentos

Igor Miranda é jornalista que escreve sobre música desde 2007 e com experiência na área cultural/musical.

Compartilhar